Quinta-feira, Novembro 12, 2009

Bob Dylan - The Drawn Blank Series

Um lado menos conhecido de Bob Dylan foi divulgado na exposição "The Drawn Blank Series" feita pela galeria e museu Lightbox em Woking, Inglaterra no ano passado. As pinturas foram feitas com base em uma série de desenhos que Dylan produziu enquanto excursionava, entre o final dos anos oitenta e início dos anos noventa (onde ele arranjou tempo para isso?). Vários exemplos desta série podem ser vistos e comprados (os preços são um pouco salgados) no site BobDylanArt.com e também publicados no livro com o título Bob Dylan: The Drawn Blank Series.

Uma nova exposição está programada para o segundo semestre de 2010, chamada de "Brazil Series" e com 100 pinturas, será exibida na Dinamarca na Galeria National Gallery. A criatividade de Dylan não tem mesmo limite.

Quarta-feira, Novembro 04, 2009

20 frases de Otto Lara Resende

Escritor e jornalista, o mineiro de São João Del Rey, Otto Lara Resende (1922 - 1992) ficou conhecido pelo seu poder de síntese na criação de frases imortais. Nelson Rodrigues (1912 - 1980), frasista incomparável, chegou uma vez a sugerir que alguém seguisse Otto 24 horas por dia para anotar as frases que ele fosse deixando pelo caminho. O próprio Nelson se dizia disposto a realizar esta tarefa para depois abastecer uma "Loja de Frases". Na verdade, Otto passou a ser uma fixação para Nelson Rodrigues que o "homenageou" com o título "Bonitinha mas ordinária ou Otto Lara Resende".

Juntamente com os amigos Fernando Sabino, Hélio Pellegrino e Paulo Mendes Campos formou o grupo conhecido como os quatro mineiros do apocalipse que marcou a cultura e literatura nacional, inventando um jeito mineiro, mas também carioca de ser.

Bem, achei que seria uma boa idéia relembrar algumas dessas frases definitivas de um escritor que faz falta nos dias de hoje. Difícil foi selecionar apenas 20 frases!

(01) Há em mim um velho que não sou eu.

(02) A Europa é uma burrice aparelhada de museus.

(03) Tenho para mim que sei, como todos os brasileiros, os três primeiros minutos de qualquer assunto.

(04) Abraço e punhalada a gente só dá em quem está perto.

(05) Como pai, me considero, modéstia à parte, uma mãe exemplar.

(06) Sou um falante que ama o silêncio.

(07) A tocaia é a grande contribuição de Minas à cultura universal.

(08) O mineiro só é solidário no câncer.

(09) Todo mundo que cruzou comigo, sem precisar parar, está incorporado ao meu destino.

(10) Deus é humorista.

(11) Ultimamente, passaram-se muitos anos.

(12) Devo ter sido o único mineiro que deixou de ser diretor de banco.

(13) Sou um sobrevivente sob os escombros de valores mortos.

(14) Texto de jornal é estação de trem depois que o trem passou. Deixou de ter interesse.

(15) A morte é noturna. À noite, todos os doentes agonizam.

(16) Leio muito à noite. Só não sou inteiramente uma besta porque sofro de insônia.

(17) Sou autor de muitos originais e de nenhuma originalidade.

(18) O mineiro seria um cara que não dá passo em falso, é cauteloso. Em Minas Gerais não se diz cautela, se diz pré-cautela...

(19) A morte é, de tudo na vida, a única coisa absolutamente insubornável.

(20) Escrever é de amargar.

Para finalizar, segue um exemplo precioso da prosa mineira, carioca e, principalmente, universal de Otto Lara Resende:

Vista Cansada
Otto Lara Resende

"Uma criança vê o que um adulto não vê. Tem olhos atentos e limpos para o espetáculo do mundo. O poeta é capaz de ver pela primeira vez o que de tão visto ninguém vê. Há pai que nunca viu o próprio filho. Marido que nunca viu a própria mulher. Isso exige às pampas. Nossos olhos se gastam no dia-a-dia, opacos.

É por aí que se instala no coração o monstro da indiferença".

Outras listas top 20 do Mundo de K: 20 traições famosas da literatura; 20 personagens mentalmente desequilibrados; 20 mortes inesquecíveis da literatura mundial; 20 personagens femininas da literatura mundial; 20 classificações de livros segundo Italo Calvino; 20 pensamentos desconcertantes (mas verdadeiros) de Woody Allen.

Sexta-feira, Outubro 30, 2009

Objeto de Desejo

A Cultura do Romance - Editora Cosac Naify - Tradução: Denise Bottmann - Organização: Franco Moretti - 1120 páginas, 40 ilustrações - lançamento Outubro 2009.

A editora Cosac Naify, seguindo a sua tradição de excelência editorial, resolveu presentear o público brasileiro com uma coleção sobre o romance em cinco volumes, publicada originalmente em italiano pela Einaudi em 2001-2003. Coordenada por Franco Moretti, professor de literatura na Universidade Stanford, reúne textos de Fredric Jameson, Mario Vargas Llosa, Jack Goody, Claudio Magris, Perry Anderson, Alfonso Berardinelli, Beatriz Sarlo, Luiz Costa Lima, Peter Burke, Hans Ulrich Gumbrecht, Hans Magnus Enzensberger, Benedict Anderson, Hayden White, Umberto Eco, Roberto Schwarz e mais 178 colaboradores de 99 instituições do mundo inteiro.

Segundo informações do site da editora Cosac Naify: "O projeto tem como pressuposto a ideia de uma literatura verdadeiramente mundial e a forma-romance, livre e aberta, como o gênero que ao longo do tempo melhor se disseminou pelas mais variadas tradições literárias, com ricas gradações entre o popular e o erudito. O duplo alargamento do ponto de vista – no tempo e no espaço – relativiza antes de tudo dois dos lugares-comuns mais associados ao romance: gênero ocidental e burguês. Sem negá-los, a obra apresenta inúmeras nuances que dizem respeito à relação com gêneros literários precedentes, com a geografia literária e também com a afirmação de atores sociais, sensibilidades modernas e línguas nacionais."

Segue abaixo o plano completo da obra, que deverá ser lançada no ritmo de um volume por semestre.

Volume I - A cultura do romance
1. O romance se faz espaço
2. Narração e mentalidade
3. Gente que escreve, gente que lê
4. Narrar a modernidade

Volume II As formas (Lançamento previsto: junho 2010)
1. Os gêneros literários
2. A escrita romanesca
3. Alto e baixo
4. Limites incertos

Volume III História e geografia
1. Poligênese
2. A aceleração européia
3. Em direção à literatura mundial
4. Futuro passado

Volume IV Temas, lugares, heróis
1. A longa duração
2. Temas
3. Lugares
4. Heróis

Volume V Lições

Bem, se algum amigo estiver em dúvida sobre um presente de bom gosto para o Natal deste ano, fica aqui uma excelente sugestão.

Sábado, Outubro 17, 2009

Ronaldo Correia de Brito - Galiléia

Ronaldo Correia de Brito - Galiléia - Editora Objetiva - Selo Alfaguara - 236 páginas - Publicação 2008

Neste romance, vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura 2009, Ronaldo Correia de Brito conseguiu reunir em sua narrativa algumas histórias que se cruzam para evidenciar os contrastes entre a vida no mundo contemporâneo e as tragédias de uma família tradicional. Os primos Ismael, Davi e Adonias retornam, após muitos anos, para a fazenda de Galiléia no sertão cearense com a finalidade de se despedirem do avô Raimundo Caetano que apodrece em seu leito de morte.

Ismael, filho ilegítimo, vem da Noruega onde estava preso por agressão à mulher. Davi viajou pela Europa e Estados Unidos como pianista e é considerado o gênio da família. Adonias, o narrador do romance, mora no Recife e estudou medicina na Inglaterra. Adonias é quem melhor define o sentimento de todos nesta viagem de retorno, quando cruzam de carro o sertão cearense: "O calor me enfada. Ele vem das pedras que afloram por todos os lados, como planta rasteira. Nada lembra mais o silêncio do que a pedra, matéria-prima do sertão que percorremos em alta velocidade".

Os personagens interagem em um certo clima de realismo fantástico que permite diálogos entre os mortos e os vivos, tudo para contar as histórias de tragédia e violência da família. Histórias que incluem assassinatos, estupro e discriminação. O autor não teme o rótulo de regionalista como afirma nesta declaração: “O meu sertão é a paisagem através da qual eu interpreto o mundo, o de hoje, o globalizado, o que rompeu com as tradições. Interessa-me a decadência, a dissolução. Meus personagens migram, sofrem o embate com as outras culturas. Sei que tenho sido vítima de preconceitos pela escolha dessa paisagem". Portanto, ninguém deve estranhar, quando "Paranoid Android" do Radiohead for citado logo no primeiro capítulo, neste momento percebi logo que estava diante de um romance diferente.

Ronaldo Correia de Brito escreveu os livros de contos As Noites e os Dias (1997), editado pela Bagaço, Faca (2003), Livro dos Homens (2005), e a novela infanto-juvenil O Pavão Misterioso (2004), todos publicados pela Cosac Naify.

Domingo, Outubro 11, 2009

Philip Roth - O Animal Agonizante

Philip Roth - O Animal Agonizante - Editora Companhia das Letras - 127 páginas - Publicação 2006 - Tradução de Paulo Henriques Britto.

Philip Roth, talvez o maior escritor norte-americano da atualidade, é apontado como favorito a cada ano para o Nobel de Literatura, não sem merecimento. Recebeu o Prêmio Pulitzer na categoria de ficção pelo romance Pastoral Amercana em 1998, Prêmio PEN/Faulkner por três vezes, PEN/Nabokov em 2006 e o PEN/Saul Bellow em 2007 para citar apenas alguns.

David Kepesh, protagonista do romance "O Animal Agonizante", é uma personalidade conhecida no meio cultural de Nova York, professor de literatura, apresenta um programa na TV e leciona um concorrido curso por ano que normalmente termina com uma festa em seu apartamento. Nestas festas Kepesh, amante da música clássica e razoável pianista, sempre escolhe uma jovem e bonita aluna para um rápido relacionamento amoroso.

A vida de David Kepesh, chegando aos setenta anos, está perfeitamente equilibrada até que ele conhece Consuela Castillo. A seguinte descrição demonstra o fascínio que a bela e sensual aluna cubana desperta no professor: "Duas coisas no corpo de Consuela chamam a atenção. Em primeiro lugar os seios. Os seios mais magníficos que jamais vi — e olhe que eu nasci em 1930: a esta altura, já vi muitos seios. Os dela eram redondos, cheios, perfeitos. O tipo de seio com um mamilo que parece um pires. Não o que parece um úbere, porém aquele mamilo grande, de um tom claro de rosa pardacento, que é tão excitante. A segunda coisa era o fato de que seus pêlos pubianos eram lisos. Normalmente são encaracolados. Os dela pareciam cabelo de asiático. Lisos, estendidos, e parcos".

Consuela Castillo chega para destruir toda a ilusão de segurança que Kepesh havia construído através dos anos, para lembrá-lo de que a eternidade é apenas uma ilusão, uma distração que nos faz esquecer da realidade. Kepesh descobre que é somente um velho: "Para aqueles que ainda não são velhos, ser velho significa ter sido. Porém ser velho significa também que, apesar e além de ter sido, você continua sendo, e a consciência de continuar sendo é tão avassaladora quanto a consciência de ter sido. Eis uma maneira de encarar a velhice: é a época da vida em que a consciência de que a sua vida está em jogo é apenas um fato cotidiano. É impossível não saber o fim que o aguarda em breve. O silêncio em que você vai mergulhar para sempre. Fora isso, tudo é tal como antes. Fora isso, você continua sendo imortal enquanto vive".

David Kepesh, durante os quase dois anos de relacionamento, passa a conhecer a insegurança emocional e o ciúme, sentimentos que não faziam parte do seu mundo equilibrado e egoísta e este é apenas o menor dos sinais, coisas piores ainda estão por vir, quando anos mais tarde Consuela o procura para lhe contar uma trágica revelação. Não sei se a poesia abaixo de Yeats influenciou Roth neste romance, mas sem dúvida, representa a essência do tema:

Death
(William Butler Yeats)

Nor dread nor hope attend
A dying animal;
A man awaits his end
Dreading and hoping all;
Many times he died,
Many times rose again.
A great man in his pride
Confronting murderous men
Casts derision upon
Supersession of breath;
He knows death to the bone -
Man has created death.

Morte
(Tradução de Péricles Eugênio da Silva Ramos)

Medo não tem, nem esperança,
Um animal a agonizar:
Aguarda um homem o seu fim,
Tudo a temer, tudo a esperar;
Já muitas vezes morreu ele,
As muitas vezes retornando.
Em seu orgulho, um grande homem,
Homens que matam enfrentando,
Sobre a substituição da vida
Atira um menosprezo forte;
Sabe ele a morte até os ossos
- Foi o homem quem criou a morte.

Sábado, Outubro 10, 2009

Herta Müller - Nobel 2009

Mais um Nobel de Literatura vai para a Europa, desta vez a escritora Herta Müller, alemã nascida na Romênia, tornou-se a décima pessoa de cidadania alemã a receber a premiação. Ela não figurava entre os autores considerados favoritos para o Nobel deste ano. De acordo com a academia: "a densidade da poesia e a franqueza da prosa de Müller ilustram o panorama dos despossuídos". O único livro dela traduzido para o português e publicado no Brasil é "O Compromisso" (Editora Globo - ver trecho aqui), lançado originalmente em 1997.

Nascida a 17 de Agosto de 1953, na aldeia de língua alemã de Nitzkydorf, na Romênia, emigrou em 1987 para a Alemanha com o seu marido, o escritor Richard Wagner, porque era censurada a publicação dos seus textos onde criticava abertamente o regime comunista.

Hoje no Caderno Prosa & Verso do Globo, foi publicado o conto "Os varredores de rua" (que mais me parece um poema) de "Depressões", primeiro livro de Herta Müller que destaquei abaixo. A tradução, inédita, é da crítica Ingrid Ani Assman de Freitas (ver análise crítica completa dela aqui).

Os varredores de rua

A cidade está impregnada de vazio. Um carro atropela meus olhos com suas luzes.

O condutor foge, pois não podem me ver na escuridão.

Os varredores de rua têm trabalho.

Eles varrem as lâmpadas, varrem as ruas para fora da cidade, varrem o morar das casas, varrem-me os pensamentos da cabeça, varrem-me de uma perna para outra, varrem-me os passos do andar.

Os varredores de rua enviam-me suas vassouras, suas magras e saltitantes vassouras. Os sapatos batem fora do meu corpo.

Caminho atrás de mim, caio fora de mim sobre a margem de minhas imaginações.

O parque late ao meu lado. As corujas comem os beijos que ficaram sobre os bancos. As corujas não dão por minha presença. Os cansados e estafados sonhos acocoram-se nos arbustos.

As vassouras varrem-me as costas porque me apoio muito na noite.

Os varredores de rua varrem as estrelas formando uma pilha, varrem-nas sobre suas pás e as esvaziam no canal.

Um varredor de rua chama um outro varredor, este um outro e este novamente um outro.

Agora todos os varredores falam e misturam todas as ruas. Caminho através de seus gritos, através da espuma de seus chamados e quebro e caio na profundidade das significações.

Dou passos grandes. Arranco minhas pernas com o andar.

O caminho foi varrido para longe.

As vassouras caem sobre mim.

Tudo dá voltas sobre si.

A cidade erra sobre o campo, para algum lugar.

Terça-feira, Outubro 06, 2009

Hilary Mantel - Booker Prize 2009

A escritora britânica de 57 anos, Hilary Mantel, venceu o Man Booker Prize 2009 com o romance histórico "Wolf Hall", superando os outros cinco finalistas. Segue abaixo a "shortlist" completa com os seis autores indicados deste ano:

The Children’s Book, A.S. Byatt

Summertime, J.M. Coetzee

The Quickening Maze, Adam Fould

Wolf Hall, Hilary Mantel

The Glass Room, Simon Mawer

The Little Stranger, Sarah Waters

O romance de 650 páginas de Mantel é ambientado na década de 1520 e narra a trajetória de Thomas Cromwell, conselheiro do rei da Inglaterra Henrique VIII que, no desejo de conseguir um herdeiro masculino, resolve abandonar a sua primeira esposa, Catarina de Aragão, e se casar com Ana Bolena. Como prêmio, Hilary Mantel, que demorou cinco anos para concluir sua obra, ganhará 50 mil libras (US$ 80 mil).

O Man Booker Prize, criado em 1969, é um dos mais prestigiados prêmios literários internacionais, conferido à melhor obra de ficção publicada no ano por um autor do Reino Unido, da República da Irlanda ou dos países da Comunidade Britânica (Commonwealth).

Sábado, Setembro 19, 2009

Duas Semanas de Férias

Queridos amigos, estarei fora do ar durante as duas próximas semanas e peço, portanto, que me desculpem pela demora em responder aos comentários por aqui.

No meu tempo de menino, eu me escondia sob a mesa da sala de jantar e lá imaginava estar protegido de tudo, encaixado entre as cadeiras eu dirigia um ônibus imaginário. Eu brincava junto ao assoalho de tacos frios e escuros, admirando as grandes estantes fechadas e cheias de livros de meu pai. Quem consegue entender o mundo de uma criança?

Nem tudo na vida se resume à literatura e se não vivermos um pouco não teremos nunca o que contar!

Quinta-feira, Setembro 17, 2009

Prêmio Portugal Telecom 2009

Divulgados os dez finalistas da sétima edição do Prêmio Portugal Telecom de Literatura em Língua Portuguesa 2009. Seis escritores brasileiros (João Gilberto Noll, Nuno Ramos, Lourenço Mutarelli, Eucanaã Ferraz, Silviano Santiago e Maria Esther Maciel) e quatro portugueses (António Lobo Antunes, Gonçalo M. Tavares, José Luis Peixoto e Inês Pedrosa) disputam os prêmios no valor de R$ 150 mil. O resultado será anunciado no dia 10 de novembro e a premiação confere R$ 100 mil ao primeiro colocado, R$ 35 mil ao segundo e R$ 15 mil ao terceiro.

Segue a lista completa em ordem alfabética por títulos:

(1) "A arte de produzir efeito sem causa", Lourenço Mutarelli (Cia das Letras);

(2) "A eternidade e o desejo", Inês Pedrosa (Alfaguara - Objetiva);

(3) "Acenos e afagos", João Gilberto Noll (Record);

(4) "Aprender a rezar na era da técnica", Gonçalo M. Tavares (Cia das Letras);

(5) "Cemitério de pianos", José Luís Peixoto (Record);

(6) "Cinemateca", Eucanaã Ferraz (Cia das Letras);

(7) "Heranças", Silviano Santiago (Rocco);

(8) "Ó", Nuno Ramos (Iluminuras);

(9) "O livro dos nomes", Maria Esther Maciel (Cia das Letras);

(10) "Ontem não te vi em Babilônia", António Lobo Antunes (Alfaguara - Objetiva).

Quarta-feira, Setembro 16, 2009

Imagens do Mundo de K

Quarta-feira, Setembro 09, 2009

Martin Amis - Água Pesada e Outros Contos

Martin Amis - Água Pesada e Outros Contos - Editora Companhia das Letras - 272 páginas - Publicação 2001 - Tradução de Rubens Figueiredo.

Esta edição reúne nove contos do escritor britânico Martin Amis (ver aqui biografia divulgada durante a FLIP 2004), cobrindo o longo período de 1976 até 1997, e publicados originalmente em diversos jornais e revistas literárias como: New Yorker, Encounter, Granta, New Statesman e Esquire. Martin Amis foi assistente editorial do Times Literary Supplement, editor literário do New Statesman e escritor especial do Observer.

Subvertendo as normas sociais, o humor ácido de Amis inventa situações surpreendentes e que nos fazem pensar, como em "Ficção Hétero", publicado na Esquire em 1995, que apresenta uma sociedade onde a homossexualidade é o padrão aceito como "normal" e a heterossexualidade um "desvio" comportamental que transforma as pessoas em meros procriadores, perseguidos por todo tipo de preconceito. Ver como exemplo o diálogo abaixo onde um casal homossexual discute a notícia publicada em um jornal sensacionalista sobre a verdadeira opção sexual do astro de cinema Burton Else (qualquer comparação com a vida real é obviamente intencional):

– É, ouvi falar. Burton.

– Burton. Ele nega. Vai processar a revista hétero que o dedurou. “E eu também não apóio estilos de vida alternativos.” Mas eles juntaram um monte de garotas de programa que fazem fila para contar os segredos dele. Burton Else, hétero. Meu Deus, nada mais é sagrado? Céus, onde é que eles foram inventar de se chamar de héteros? Pegaram um bom radical grego, antigo e sério, cheio de classe, e esculhambaram com ele para a gente não poder mais usar.

– É mesmo um radical bastante usado. Eu encontro de vez em quando. Hétero.

– São coisas heterogêneas.

– São economistas heterodoxos.

– São os heterônimos do poeta.

– São plantas heterogâmicas.

– São médicos heteropatas.

– Que diabo é isso?

– A medicina alopata. Alopatia.

– Puxa, será que todo médico alopata é hetero? Meu Deus. Só vai nos restar a homeopatia (...).

Em "Ascensão Profissional", publicado originalmente em 1992 na revista New Yorker, a inversão mostra poetas que faturam milhões com destaque na mídia e sociedade, enquanto roteiristas de cinema, vivendo na pobreza, esperam por vários anos a oportunidade de publicar seus roteiros em revistas especializadas de baixa tiragem.

Um dos melhores contos desta edição, na minha opinião, foi publicado em 1981 na revista Granta com o título de "Quero calcular quantas vezes". Lembro que li este conto de uma só vez em uma tarde na Livraria da Travessa do Leblon. Logo no início Martin Amis conquista o leitor com esta apresentação:

"Vernon fazia amor com a esposa três vezes e meia por semana, e isso estava muito bem. Por algum motivo, fazer amor sempre tinha essa média. Normalmente - se bem que nunca invariavelmente - eles faziam amor uma vez a cada duas noites. Por outro lado, sabia-se que Vernon podia fazer amor com a esposa sete noites consecutivas; nas sete noites seguintes, não faziam amor - ou talvez viessem a fazer uma vez só, mas nesse caso só fariam amor duas vezes na semana seguinte, mas quatro vezes depois disso - ou talvez só três vezes, e nesse caso fariam amor quatro vezes na semana seguinte, mas só duas vezes na semana subsequente - ou talvez uma só. E assim por diante. Vernon não sabia por quê, mas fazer amor sempre dava essa média; parecia invariável. De vez em quando - e por acaso isso era de admirar? - Vernon descobria que tinha vontade de que a semana tivesse apenas seis dias, ou nada menos do que oito dias, para tornar esses cálculos (que tinham sempre um efeito aprazivelmente fortificante para o espírito) mais fáceis de manejar. (...)"

Podemos dizer que o humor, de certa forma bizarro, de Martin Amis é como uma lente de aumento em nosso cotidiano, destacando, ampliando e fazendo refletir sobre o absurdo do comportamento em sociedade, mas sempre provocando simpatia e identificação. Afinal, somos todos humanos.

Segunda-feira, Setembro 07, 2009

Smiths - The Queen is Dead

No início dos anos oitenta as pessoas andavam um pouco saturadas de heróis da guitarra e super bandas progressivas no cenário do rock internacional das duas últimas décadas, foi então que, na sempre criativa cena de Manchester, em 1982, a dupla Johnny Marr e Morrissey decidiu formar uma banda diferente com o nome simples e provocativo de Smiths.

Johnny Marr, apesar de intitulado com muito respeito pela revista Guitar Player em 1990 como anti-herói da guitarra (ver a divertida matéria aqui), acabou se tornando um dos músicos mais influentes da década, com suas complexas harmonias tentando ser imitadas por U2 e Radiohead, para citar apenas duas bandas contemporâneas.

Terceiro disco na curta carreira dos Smiths (1982 - 1987), "The Queen is Dead" foi gravado em dezembro de 1985 e não foi lançado imediatamente por problemas legais, sendo comercializado somente em junho de 1986. Os singles "Bigmouth Strikes Again", "The Boy With The Thorn in His Side" e "There Is A Light That Never Goes Out", além de "I Know It's Over", estão todos presentes neste album.

A versão ao vivo abaixo da linda "There is a Light That Never Goes Out" com Neil Finn (The Crowded House), Johnny Marr e alguns integrantes do Radiohead mostram como ainda existe muita modernidade no som dos Smiths para ser explorado pelas futuras gerações.

There is a Light That Never Goes Out
(Johnny Marr / Morrissey)

Take me out tonight
Where theres music and theres people
And theyre young and alive
Driving in your car
I never never want to go home
Because I havent got one
Anymore

Take me out tonight
Because I want to see people and I
Want to see life
Driving in your car
Oh, please dont drop me home
Because its not my home, its their
Home, and Im welcome no more

And if a double-decker bus
Crashes into us
To die by your side
Is such a heavenly way to die
And if a ten-ton truck
Kills the both of us
To die by your side
Well, the pleasure - the privilege is mine

Take me out tonight
Take me anywhere, I dont care
I dont care, I dont care
And in the darkened underpass
I thought oh god, my chance has come at last
(but then a strange fear gripped me and I
Just couldnt ask)

Take me out tonight
Oh, take me anywhere, I dont care
I dont care, I dont care
Driving in your car
I never never want to go home
Because I havent got one, da ...
Oh, I havent got one

And if a double-decker bus
Crashes into us
To die by your side
Is such a heavenly way to die
And if a ten-ton truck
Kills the both of us
To die by your side
Well, the pleasure - the privilege is mine

Oh, there is a light and it never goes out
There is a light and it never goes out
There is a light and it never goes out
There is a light and it never goes out
There is a light and it never goes out
......

Segunda-feira, Agosto 31, 2009

Novo Livro de José Saramago

José Saramago, vinte anos depois do polêmico "O Evangelho Segundo Jesus Cristo", volta a incomodar a Igreja Católica com o seu próximo romance "Caim" no qual redime o assassino de Abel e acusa Deus "como o autor intelectual do crime". O novo romance será divulgado durante a Feira do Livro de Frankfurt, que ocorrerá de 14 a 18 de outubro e tem previsão de lançamento em Portugal, Brasil e Espanha para o final de Outubro.

Segundo matéria do Estadão, José Saramago não considera esse romance seu particular e definitivo ajuste de contas com Deus, porque "as contas com Deus não são definitivas, mas sim com os homens que O inventaram", disse. "Deus, o demônio, o bem, o mal, tudo isso está em nossa cabeça, não no céu ou no inferno, que também inventamos. Não nos damos conta de que, tendo inventado Deus, imediatamente nos tornamos Seus escravos", assinalou o autor.

No entanto, o melhor resumo sobre o livro e também sobre a filosofia Saramaguiana, como sempre, é de sua eterna companheira e porta-voz Pilar del Rio no blog da Fundação José Saramago:

"Saramago escreveu outro livro. O seu título é “Caim”, e Caim é um dos protagonistas principais. Outro é Deus, outro ainda é a humanidade nas suas diferentes expressões. Neste livro, tal como nos anteriores, “O Evangelho segundo Jesus Cristo”, por exemplo, o autor não recua diante de nada nem procura subterfúgios no momento de abordar o que, durante milénios, em todas as culturas e civilizações foi considerado intocável e não nomeável: a divindade e o conjunto de normas e preceitos que os homens estabelecem em torno a essa figura para exigir a si mesmos - ou talvez seria melhor dizer para exigir a outros- uma fé inquebrantável e absoluta, em que tudo se justifica, desde negar-se a si mesmo até à extenuação, ou morrer oferecido em sacrifício, ou matar em nome de Deus."

Polêmicas à parte, só nos resta esperar o lançamento e agradecer à Deus, ou não, por esta oportunidade de ainda termos um romance inédito de Saramago para ler. Autor que, ninguém duvida, é o maior escritor em língua portuguesa da atualidade.

Sexta-feira, Agosto 28, 2009

Granta Vol. 1 - Os melhores jovens escritores norte-americanos

Revista Granta Vol. 1 - Editora Objetiva, Selo Alfaguara, 2007 - publicado originalmente em inglês por Granta Publications com o título: Granta 97: Best of Young American Novelists 2.

Esta é a primeira edição em português da famosa revista literária Granta em língua inglesa que tem como regra principal só publicar textos inéditos e por onde já passaram autores famosos como Mario Vargas Llosa, Coetzee, Primo Levi, Edmund White, Paul Theroux, Gabriel Garcia Marques e Carlos Fuentes, entre outros menos conhecidos.

A versão original da revista surgiu em 1889, fundada por alunos da Universidade de Cambridge, com o objetivo de discutir e divulgar temas universitários. Durante o século XX, foram publicados escritores que se tornariam famosos como Sylvia Plath e Ted Hughes. No final de 1970, depois de quase encerrar as atividades, a revista foi salva por estudantes de pós-graduação que reinventaram a sua forma atual, priorizando novos autores.

As listas de novos autores, publicadas a cada dez anos, revelaram nomes hoje muito conhecidos como: Martin Amis, Julian Barnes, Kazuo Ishiguro, Ian McEwan, Salman Rushdie, Will Self e Hanif Kureishi. Esta edição foi baseada na lista de melhores autores norte-americanos (21 autores com menos de 35 anos em 1996), incluindo Jonathan Safran Foer e Nicole Krauss.

Uma coletânea original e surpreendente, pois apesar de contar apenas com autores jovens, não se limita a estruturas narrativas de estilo contemporâneo. Dora Horn, por exemplo, com "Pessach em Nova Orleans" apresenta um trecho de um romance de aventuras no melhor estilo de Mark Twain, ambientado em plena guerra de secessão americana.

Existe também muito experimentalismo como no caso de Jonathan Safran Foer em "Quarto após Quarto" que apresenta como centro da narrativa um quarto de hospital e as relações um tanto quanto confusas do médico com sua paciente terminal ou Karen Russel com um conto muito bem humorado intitulado "O celeiro ao fim de nosso mandato" que explora a idéia de 11 ex-presidentes dos Estados Unidos que voltam à vida como cavalos em um celeiro.

Vale notar a presença nesta coletânea de autores nascidos em outros países como Rússia, China, Tailândia e India o que acrescenta um colorido todo especial, destacando o que de melhor encontrei neste livro: a oportunidade de conhecer a diversidade e criatividade dos novos autores e obviamente ler alguns ótimos contos.

Domingo, Agosto 23, 2009

Top Blog - Encerramento Votação Popular

Após o encerramento da votação popular da premiação TOP BLOG, categoria cultura, o Mundo de K conseguiu se manter entre os 100 blogs mais votados e passou para a próxima fase onde serão analisados, por um juri acadêmico, os seguintes quesitos: conteúdo, apresentação, interatividade, criatividade e atualização. Para conhecer os blogs finalistas por categoria, em ordem alfabética, é só clicar na imagem do lado esquerdo. A divulgação dos vencedores será feita no dia 31/08/09 pela organização do evento, na cidade de São Paulo.

Agradeço aos amigos a gentileza de terem votado no Mundo de K.

Quinta-feira, Agosto 20, 2009

Finalistas do Prêmio Jabuti 2009

Divulgada a lista de finalistas da 51º edição do Prêmio Jabuti, versão 2009. Os vencedores em cada categoria serão divulgados em 29 de setembro. Segue abaixo a relação de escolhidos na categoria Romance. A lista completa com as 21 categorias (poesia, contos & crônicas, tradução entre outras) está na página da CBL - Câmara Brasileira do Livro. Segundo regulamento da organização do prêmio, podem concorrer apenas obras inéditas, editadas no Brasil, entre 1º de janeiro e 31 de dezembro de 2008. Na versão do ano passado o grande vencedor da categoria romance foi Cristovão Tezza com "O Filho Eterno" da Editora Record Ltda.

Finalistas Categoria Romance

Flores azuis (Cia das Letras) - Carola Saavedra

Cordilheira (Cia das Letras) - Daniel Galera

Órfãos do Eldorado (Cia das Letras) - Milton Hatoum

Galiléia (Alfaguara) - Ronaldo Correia de Brito

Satolep (Cosac Naify) - Vitor Ramil

Manual da paixão solitária (Cia das Letras) - Moacyr Scliar

A parede no escuro (Record) - Altair Martins

O livro dos nomes (Cia das Letras) - Maria Esther Maciel

Um livro em fuga (Record) - Edgar Telles Ribeiro

Heranças (Rocco) - Silviano Santiago

Terça-feira, Agosto 18, 2009

Manifesto por um Brasil Literário

Praticamente não divulgado pela mídia, mas durante a última Festa Literária Internacional de Paraty - FLIP 2009, foi lançado o "Manifesto por um Brasil Literário", criado pelo escritor e poeta Bartolomeu Campos de Queirós. O objetivo deste documento é debater idéias em torno da divulgação da literatura. O manifesto pode ser assinado no site http://www.brasilliterario.org.br/, que abriga um fórum de discussão, enquetes e notícias relacionados ao tema.

Segue um trecho do manifesto: "É no mundo possível da ficção que o homem se encontra realmente livre para pensar, configurar alternativas, deixar agir a fantasia. Na literatura que, liberto do agir prático e da necessidade, o sujeito viaja por outro mundo possível. Sem preconceitos em sua construção, daí sua possibilidade intrínseca de inclusão, a literatura nos acolhe sem ignorar nossa incompletude."

Talvez este movimento não seja tão "urgente" quanto tantos outros manifestos no Brasil pela cidadania, dignidade, segurança ou educação básica, mas é necessário e importante sem dúvida, por este motivo já deixei minha assinatura por lá. Obrigado ao blog amigo Ilusão da Semelhança pela boa dica.

Sexta-feira, Agosto 14, 2009

J.M. Coetzee - Elizabeth Costello

J.M. Coetzee - Elizabeth Costello - Editora Companhia das Letras - 254 páginas - Publicação 2004 - Tradução de José Rubens Siqueira.

A coisa mais extraordinária sobre o escritor sul-africano John Maxwell Coetzee, Nobel de literatura 2003, além da sua capacidade de me fazer quase sempre perder a estação de metrô, é a habilidade de sintetizar em vinte páginas o que outros escritores precisam de duzentas para explicar e nem sempre conseguem. Não é diferente com este romance que tem como personagem-título a romancista australiana Elizabeth Costello, alter ego de Coetzee, que teria ficado famosa pelo romance "A casa da rua Eccles com o personagem principal Marion Bloom, mulher de Leopold Bloom, protagonista de Ulisses (1922) de James Joyce.

Este foi o primeiro trabalho de Coetzee depois do premiado "Desonra" (ver resenha do Mundo de K aqui). Em Elizabeth Costello ele se utiliza de um recurso narrativo de metaficção para refletir sobre a literatura e o trabalho dos escritores, através de oito palestras da escritora de sessenta e seis anos de idade, defensora dos animais, em diferentes situações que ela vivencia ao viajar pelo mundo recebendo prêmios literários. Nunca fica claro para o leitor se está diante de uma obra autobiográfica, de ficção ou ensaio filosófico onde não faltam citações a romancistas consagrados como Swift, Daniel Defoe e Kafka e filósofos como Kant e Wittgenstein.

Difícil escolher e destacar alguns trechos, mas o capítulo sobre Eros e as relações eróticas entre homens e deuses é magistral: "Amor e morte. Os deuses, os imortais, foram os inventores da morte e da corrupção; porém, com exceção de dois ou três exemplos notáveis, não tiveram coragem de experimentar sua invenção em si mesmos. Por isso é que têm tanta curiosidade sobre nós, são tão infindavelmente inquisitivos. (...) Dos dois, deuses e mortais, somos nós que vivemos com maior urgência, que sentimos com maior intensidade. Por isso é que não podem nos tirar da cabeça, não podem passar sem nós, nos vigiam incessantemente e nos espionam. É por isso, afinal, que não baixam uma proibição ao sexo conosco, simplesmente regulam quando, de que jeito e com que frequência. Inventores da morte; inventores do turismo sexual também. Nos êxtases sexuais dos mortais, o frisson da morte, suas contorções, seus relaxamentos: falam disso sem parar quando bebem demais - com quem primeiro experimentaram isso, como foi. Eles gostariam de ter aquele arrepiozinho inimitável em seu repertório erótico, para temperar os acasalamentos entre eles. Mas isso tem um preço que não estão dispostos a pagar. Morte, aniquilação: e se não existir ressureição?, pensam, apreensivos."

Destaque também para a declaração da escritora no surpreendente último capítulo onde, longe do céu e do inferno, ela sofre para escrever uma das melhores definições já pensadas sobre literatura: "Sou escritora, uma mercadora de ficções. Tenho apenas crenças provisórias: crenças fixas me atrapalhariam. Mudo de crença como mudo de casa ou de roupas, de acordo com minhas necessidades. (...) Sou escritora, e o que escrevo é o que escuto. Sou secretária do invisível, uma das muitas secretárias ao longo das eras. Esta é a minha missão: secretária estenógrafa. Não me compete interrogar, julgar o que me é dado. Simplesmente escrevo as palavras e testo, testo a sua integridade, para ter certeza de que ouvi direito."

Terça-feira, Agosto 11, 2009

Copa de Literatura Brasileira 2009

As boas iniciativas devem sempre ser divulgadas e assim é o caso da Copa de Literatura Brasileira (CLB) que chega este ano à sua terceira edição com uma nova formatação. Nesta versão a seleção ficará sob responsabilidade dos jurados - escritores e críticos convidados pelo organizador Lucas Murtinho que definiu muito bem a característica do evento: "não se trata de eleger o melhor livro do ano mas de guiar o público, provocar o debate, criar expectativas e, inevitavelmente, causar decepções."

Para quem ainda não conhece, cada jogo da CLB é definido pela análise e resenha do jurado previamente escolhido e que ficará sujeito a comentários, muitas vezes apaixonados dos "torcedores". Assim como nas partidas de futebol também na CLB ocorrem as "zebras". Sem maiores introduções, segue abaixo a tabela de "jogos" da Copa de Literatura Brasileira, versão 2009:

Oitavas de final
Jogo 1: Cordilheira de Daniel Galera x O livro dos nomes de Maria Esther Maciel
Jurado: Paulo Polzonoff Jr.

Jogo 2: Areia nos dentes de Antônio Xerxenesky x O vencedor está só de Paulo Coelho
Jurado: Fernando Torres

Jogo 3: O fazedor de velhos de Rodrigo Lacerda x O verão do Chibo de Vanessa Barbara e Emilio Fraia
Jurado: Bernardo Brayner

Jogo 4: Galiléia de Ronaldo Correia de Brito x Manual da paixão solitária de Moacyr Scliar
Jurado: Felipe Charbel

Jogo 5: Flores azuis de Carola Saavedra x Dias de Faulkner de Antônio Dutra
Jurado: Tiago A.

Jogo 6: O ponto da partida de Fernando Molica x Acenos e afagos de João Gilberto Noll
Jurado: Fabio Silvestre Cardoso

Jogo 7: A arte de produzir efeito sem causa de Lourenço Mutarelli x Jonas, o copromanta de Patrícia Melo
Jurado: Luís Francisco Carvalho Filho

Jogo 8: Órfãos do Eldorado de Milton Hatoum x O conto do amor de Contardo Calligaris
Jurado: Alex Castro

Quartas de final
Jogo 9: Vencedor do jogo 1 x Vencedor do jogo 2
Jurada: Beatriz Resende

Jogo 10: Vencedor do jogo 3 x Vencedor do jogo 4
Jurada: Simone Campos

Jogo 11:Vencedor do jogo 5 x Vencedor do jogo 6
Jurado: Leandro Oliveira

Jogo 12: Vencedor do jogo 7 x Vencedor do jogo 8
Jurado: Luís Augusto Fischer

Semifinais
Jogo 13: Vencedor do jogo 9 x Vencedor do jogo 10
Jurado: Doutor Plausível

Jogo 14: Vencedor do jogo 11 x Vencedor do jogo 12
Jurado: Antonio Marcos Pereira

Final
Jogo 15: Vencedor do jogo 13 x Vencedor do jogo 14
Jurado: Todos + Lucas Murtinho

A Copa é inspirada no Tounament of Books, criado em 2005 pela revista eletrônica americana The Morning News em parceria com a livraria Powell’s .

Quarta-feira, Agosto 05, 2009

Bertolt Brecht - Poemas 1913 - 1956

Bertolt Brecht - Poemas 1913 - 1956 - Editora Brasiliense, 1986 - Antologia - 329 páginas - Seleção, Tradução e Posfácio de Paulo Cesar Souza (fora de catálogo)

Bertolt Brecht (1898 - 1956), poeta, dramaturgo, novelista e crítico de arte alemão, viveu como poucos artistas os maiores movimentos políticos e sociais do século XX. Quando a Alemanha foi dominada por Hitler, Brecht partiu para o exílio, pois sua obra moderna, na poesia e no teatro, não combinava com o regime nazista. Durante a Segunda Guerra Mundial, depois da ocupação da Dinamarca, estabeleceu-se nos EUA para ser posteriormente perseguido pelo regime de "caça as bruxas" macartista. Retornou para a Alemanha Oriental, pois acreditava na filosofia marxista como solução humanista para a sociedade.

Este livro apresenta uma seleção de 270 poemas onde, segundo o tradutor Paulo Cesar Souza, buscou-se recriar os ritmos dos originais. Isto vai de encontro à concepção que o próprio Brecht tinha da questão: "Na tradução para uma outra língua, os poemas são prejudicados sobretudo pelo fato de se tentar traduzir demais. Deveríamos talvez contentar-nos com a tradução das idéias e da atitude do autor. Aquilo que no original for um elemento da atitude de quem escreve, deveríamos tentar traduzir; não mais do que isso." (Gesammelte Werke, Bd. 19, Schrifen zur Kunst und Literatur 2 [Escritos sobre Arte e Literatura 2], p. 404).

Cantar de mãe alemã
(1941 - 1947)

Meu filho, esse par de botas
E essa camisa marrom eu te dei
Mas teria antes me matado
Se soubesse o que hoje sei.

Meu filho, ao te ver erguer
A mão para Hitler em saudação
Não sabia que o teu destino
Seria a própria danação.

Meu filho, ao te ouvir falar
De uma grande raça de heróis
Não sabia, não via nem pressentia
Que eras mais um algoz.

Meu filho, ao te ver marchar
Atrás de Hitler em corte
Não sabia que quem com ele partia
Nada acharia senão a morte.

Meu filho, tu dizias: a Alemanha
Em breve será motivo de assombro.
Eu não sabia que ela se tornaria
Um monte de cinzas e escombros.

Vi a camisa marrom te vestir
Não me opor foi minha falha
Pois não sabia o que hoje sei:
Que ela era a tua mortalha.

A troca da roda
(1947 - 1956)

Estou sentado à beira da estrada,
o condutor muda a roda.
Não me agrada o lugar de onde venho.
Não me agrada o lugar para onde vou.
Por que olho a troca da roda
com impaciência?

Se fossemos infinitos
(1947 - 1956)

Fossemos infinitos
Tudo mudaria
Como somos finitos
Muito permanece.

Terça-feira, Agosto 04, 2009

Resultado do Prêmio São Paulo de Literatura 2009

O prêmio São Paulo de Literatura 2009 apresentou ontem, durante cerimônia realizada no Museu da Língua Portuguesa, os vencedores da sua 2° edição. Foram analisados 217 romances de 75 editoras e 13 autores independentes, que incluíram autores consagrados como Milton Hatoum, Moacyr Scliar, João Gilberto Noll e José Saramago (ver relação completa de finalistas aqui).

Os vencedores, em cada categoria, foram os seguintes: Melhor Livro de Autor Estreante do Ano 2008: Altair Martins, com A parede no escuro (Editora Record, 256 pp.) e Melhor Livro do Ano 2008: Ronaldo Correia de Brito, com Galiléia (Editora Alfaguara, 240 pp.). Perguntado por um colega sobre quais eram os planos para o prêmio, Altair Martins respondeu “vou quitar minha casa e tentar trabalhar um pouco menos como professor para ter mais tempo pra escrever.” Ele é gaúcho de Porto Alegre, formado em letras e dá aulas na faculdade de segunda a sexta, das 10h30 às 19h30. Quanto a Ronaldo Correia de Brito é mais um médico que se tornou escritor, natural do Ceará e residente hoje em Recife.

Fonte: Publishnews.

Terça-feira, Julho 28, 2009

Finalistas do Man Booker Prize 2009

Divulgada hoje a lista dos 13 finalistas (longlist) do Man Booker Prize, versão 2009 (ver site oficial aqui). Segundo o procedimento desta premiação, a lista de 06 finalistas (shortlist) será anunciada em 8 de Setembro e o vencedor em 6 de Outubro. A lista deste ano é considerada uma das mais fortes das últimas edições e Coetzee poderá vir a ser o primeiro escritor a ganhar pela terceira vez o Booker Prize. Segundo a organização do prêmio foram analisados 132 livros para se chegar a esta longlist.

Ver a relação completa abaixo, por ordem alfabética de autores:

Byatt, AS - The Children’s Book

Coetzee, J M - Summertime

Foulds, Adam - The Quickening Maze

Hall, Sarah - How to paint a dead man

Harvey, Samantha - The Wilderness

Lever, James - Me Cheeta

Mantel, Hilary - Wolf Hall

Mawer, Simon - The Glass Room

O'Loughlin, Ed - Not Untrue & Not Unkind

Scudamore, James - Heliopolis

Toibin, Colm - Brooklyn

Trevor, William - Love and Summer

Waters, Sarah - The Little Stranger

Mais sobre o Man Booker Prize no Mundo de K: Man Booker International Prize 2009; Aravind Adiga Booker Prize 2008; Resultado do "Melhor do Booker"; Anne Enright Booker Prize 2007.

Domingo, Julho 26, 2009

John Mayer

Não é muito fácil para um guitarrista ter um modelo customizado incluído na linha de produção da legendária fábrica de guitaras Fender, com a sua assinatura. Esta é uma honra que poucos músicos consagrados conseguiram alcançar, nomes como: Eric Clapton, Jeff Beck, Buddy Guy, Stevie Ray Vaughan, Ritchie Blacmore e Robert Cray ajudaram a imortalizar, depois de Jimi Hendrix, a imagem da Fender na história da música contemporânea. O jovem John Mayer, com apenas 32 anos, conseguiu entrar nesta seleta galeria com o lançamento do modelo John Mayer Stratocaster®.

O que chama a atenção no estilo de John Mayer é a forte influência do blues e muita originalidade na interpretação de clássicos de Jimi Hendrix e Stevie Ray Vaughan. O exemplo que selecionei abaixo é simplesmente "Bold as love" de Hendrix que dispensa apresentações, vale a pena também checar a balada pop-rock "Free falling" de Tom Petty que Mayer soube entender muito bem e transpor para uma versão acústica que foi incluída no DVD "Where the light is" (ver no you tube aqui).

Segunda-feira, Julho 20, 2009

Os Melhores Contos de Cães e Gatos - Organização Flávio Moreira da Costa

Antes de mais nada, é melhor não se enganar com a aparente simplicidade do tema ou da capa desta Antologia. Se você é um amante de cães (meu caso – ver postagem sobre cães e literatura aqui), gatos ou simplesmente não vê nenhum sentido em desenvolver um relacionamento afetivo com um animal de estimação (desconfio sempre desse tipo de pessoa), não há como deixar de apreciar os 43 contos narrados por mestres da literatura de todas as épocas como Honoré de Balzac, Émile Zola, Rudyard Kypling, Ivan Turguêniev, Anton Tchekhov, Machado de Assis, Thomas Mann, Luigi Pirandello, Mario Benedetti, entre muitos outros. No final, os contos acabam falando mais e, principalmente, do comportamento do homem e, sobretudo, do que ele tem de bom e mau através de sua relação com os animais.

Flávio Moreira da Costa se saiu bem mais uma vez ao organizar esta nova Antologia de sucesso, depois de Os melhores contos de loucura (Ediouro, 2007 - ver aqui resenha do Mundo de K), Os melhores contos fantásticos (Nova Fronteira, 2006), Grandes contos populares do mundo todo (Ediouro, 2005), Os melhores contos de medo, horror e morte (Nova Fronteira, 2005), As cem melhores histórias eróticas da literatura universal (Ediouro, 2003), Os cem melhores contos de humor da literatura universal (Ediouro, 2001) e outras, além de uma bibliografia própria considerável com romances, contos e ensaios.

O time de tradutores desta edição também é de primeira linha, contando com traduções exclusivas de Celina Portocarrero (francês, inglês e italiano), Léo Schlafman (espanhol, italiano e francês), Rubens Figueiredo (russo), Roberto Muggiati (inglês), Daniel Pellizzari (inglês), Flávio Alves MC (francês), Alves Moreira (inglês), Maria Luiza Newlands (inglês), Flávio Moreira da Costa (inglês) e Julia Romeu (inglês).

Os contos foram selecionados de várias épocas, iniciando na antiguidade (Homero e Fedro), passando pelo Renascimento (Leonardo da Vinci), Romantismo e Realismo, até chegar ao século XX. Esta variação acaba tirando a uniformidade da Antologia, mas por outro lado oferece uma oportunidade de conhecer novos autores e comparar estilos e épocas diferentes. Gostaria de finalizar com esta excelente citação de Tchekhov: "Que grandes pessoas são os cães!", tão bem destacada e comprovada por Flávio Moreira da Costa (sem desmerecer os gatos, é claro).

Sexta-feira, Julho 17, 2009

Biblioteca Britânica na Internet

Segundo divulgação do Portal G1, a Biblioteca Britânica disponibilizou na Internet um acervo considerável composto por 150 milhões de fontes de informação diferentes e com acesso às 750 milhões de páginas dos 49 principais jornais britânicos publicados desde janeiro de 1800. A Biblioteca Britânica é a segunda maior do mundo, ficando atrás somente da biblioteca do Congresso americano.

Para pesquisas que necessitem de download, há um custo equivalente a R$ 25 e o acesso vale por 24 horas. Os documentos foram microfilmados e podem ser acessados em segundos, como artigos publicados pela imprensa britânica sobre a independência do Brasil, em 1822, ou a abolição da escravatura, em 1888.

A Galeria online da Biblioteca Britânica conta com 30.000 itens da coleção e vale lembrar também do fantástico sistema simulador 3D chamado “Turning the Pages” (ver aqui postagem do Mundo de K) para consulta de livros raros através do seu site como, por exemplo, o caderno de anotações de William Blake com poemas e desenhos, diário musical de Mozart com originais de várias partituras, rascunhos de Leonardo da Vinci e original de Lewis Carroll, além de uma série de documentos históricos.

Terça-feira, Julho 14, 2009

Hans Magnus Enzensberger

Eu falo dos que não falam - Hans Magnus Enzensberger - Editora Brasiliense, 1985 - Antologia Bilíngue - 139 páginas - Tradução Kurt Scharf e Armindo Trevisan (fora de catálogo)

O escritor, poeta e intelectual Hans Magnus Enzensberger é citado, normalmente, como um dos maiores poetas vivos da língua alemã. Nascido em 1929 na Baviera, viveu a sua infância durante o governo nazista e a juventude no processo de reconstrução econômica da Alemanha. Seu posicionamento político, no início da carreira, era francamente de esquerda radical, tendo residido em Cuba nos anos sessenta. Foi considerado um sucessor do filósofo Theodor Adorno e, no campo da poesia, de Bertold Brecht. Seus ensaios e obras literárias ficaram famosos pela análise sobre a política, a crítica social e a tradição literária. Foi membro do Grupo 47, importante marco da renovação literária alemã, e professor convidado de poesia na Universidade de Frankfurt.

Em evento organizado no mês passado pelo Instituto Moreira Salles, Companhia das Letras e Goethe-Institut, Enzensberger esteve em São Paulo para o lançamento do livro Hammerstein ou a Obstinação (Companhia das Letras) – ver matéria da revista Veja aqui. Entre suas obras traduzidas para o português estão A outra Europa (Companhia das Letras, 2006), O diabo dos números (Companhia das Letras, 2000) e Elementos para uma teoria dos meios de comunicação (Conrad, 2003).

Selecionei para esta postagem a poesia O divórcio (Die Scheidung), incluída na Antologia do livro A fúria do sumiço (Die Furie des Verschwindens) publicado em 1980. Trata-se de um trabalho doloroso, eu diria agonizante mesmo e que sintetiza com perfeição até que ponto pode chegar a relação entre seres humanos.

O divórcio (Die Scheidung)
Enzensberger

No início era só um tremor imperceptível da pele –
“Como quiseres” –, ali onde a carne é mais escura.
“O que tens?” – Nada. Sonhos leitosos
de abraços, mas na manhã seguinte
o outro parece diferente, estranhamente ossudo.
Mal-entendidos que cortam como facas. “Aquela vez em Roma” –
Isso eu não disse nunca. – Silêncio. Loucas palpitações
do coração, um tipo de ódio, estranho. – “Não se trata disso.”
Repetições. Com clareza radiante a certeza:
A partir de agora tudo é errado. Inodora e nítida
como uma foto de passaporte, essa pessoa desconhecida,
o copo de chá na mesa, os olhos fixos.
Não tem sentido, não tem sentido:
Ladainha na cabeça, um acesso de náusea.
Fim das rixas. Devagar a sala
se enche de culpa até o teto
A voz queixosa é alheia, apenas os sapatos
que caem ao chão com um estrondo, os sapatos não.
Na próxima vez, num restaurante vazio,
câmera lenta, migalhas de pão, fala-se de dinheiro.
Risos. A sobremesa tem sabor metálico.
Dois intocáveis. Lógica estridente.
“Não é tão grave assim.” Porém, à noite,
o rancor, a luta silenciosa, anônimos
como dois advogados ossudos, dois caranguejos grandes
na água. Enfim, o cansaço. Devagar
a crosta descasca. Uma nova tabacaria,
um novo endereço. Párias, terrivelmente aliviados.
Sombras que empalidecem. Este é o processo.
Este é o molho de chaves. Esta é a cicatriz.

Terça-feira, Julho 07, 2009

Projeto Codex Sinaiticus

Conforme matéria do site da BBC Brasil cerca de 800 páginas do exemplar conhecido mais antigo da Bíblia foram restauradas e estão disponíveis para consulta na Internet. Trata-se do manuscrito Codex Sinaiticus, como é conhecido este documento, escrito em grego em folhas de pergaminho no século IV.

Por 1,5 mil anos, o manuscrito ficou preservado em um mosteiro na Península do Sinai, no Egito. O nome "Codex Sinaiticus" literalmente significa "O Livro do Sinai". Em 1844, ele foi encontrado e dividido entre a Grã-Bretanha, Alemanha, Egito e Rússia. Acredita-se que o documento resistiu ao tempo porque o ar do deserto é ideal para a conservação do pergaminho, e porque o mosteiro permaneceu intocado por todos esses anos.

"O livro oferece uma janela ao início do cristianismo e indícios de primeira mão sobre como o texto bíblico foi transmitido de geração para geração”, afirmou Scot McKendrick, chefe do Departamento de Manuscritos Ocidentais da Biblioteca Britânica. Com 1.600 anos, é o mais antigo livro contendo o Novo Testamento completo, boa parte do Antigo Testamento e dos textos apócrifos, além de dois antigos textos cristãos não encontrados nas Bíblias modernas.

Para marcar o lançamento do site http://www.codexsinaiticus.org/, a Biblioteca Britânica está realizando uma exposição em sua sede, em Londres, que incluiu vários artefatos históricos ligados ao assunto. Este site apresenta riqueza de detalhes sobre a historia do Codex e o processo de reconstrução, tradução e digitalização do manuscrito, uma dica imperdível e mais um excelente exemplo de bom uso da Internet.

Quinta-feira, Julho 02, 2009

Top Blog - Categoria Cultura

O Mundo de K está entre os 100 blogs mais votados na categoria cultura da premiação Top Blog. Para ver os blogs selecionados por categoria é só clicar na imagem do lado esquerdo. Segundo definição dos organizadores o prêmio é um sistema interativo de incentivo cultural destinado a reconhecer e premiar, mediante a votação popular e acadêmica (Júri acadêmico) os blogs brasileiros mais populares, que possuam a maior parte de seu conteúdo focado para o público brasileiro, com melhor apresentação técnica específica a cada grupo (pessoal, profissional e corporativo) e categorias (celebridades, cultura, comunicação, esportes, games, humor, música, política, saúde, sustentabilidade, tecnologia e variedades).

Não acho que este blog consiga ser muito popular, nem é esta a finalidade, mas ficaria muito satisfeito se conseguisse terminar entre os 50 primeiros blogs. A votação popular continua até 11/08/09 e quem quiser votar no Mundo de K é só clicar na imagem acima, sendo necessário informar o endereço de e-mail para confirmação. É claro que agradeço antecipadamente a gentileza.

Terça-feira, Junho 30, 2009

Caravaggio - Luz e Sombras

Palazzo Barberini, Roma - Judith Beheading Holofernes

Não há muito espaço aqui para digressões sobre Caravaggio (1571 - 1610), o artista que soube representar o sagrado e o profano de forma praticamente brutal, destacando as figuras humanas em luz contra fundos escuros em um realismo perturbador. A dica é visitar o site caravaggio.com que funciona como um gigantesco banco de dados dos trabalhos do pintor italiano, incluindo aqueles de origem não confirmada, com notas biográficas e análises críticas.

O mais interessante neste banco de dados extraordinário, além das informações detalhadas sobre as obras e a localização das mesmas em cada país e museu do mundo, é a possibilidade de explorar as pinturas com recursos de alta precisão digital que permitem ampliar detalhes e analisar as técnicas utilizadas. Uma experiência única e um excelente exemplo de boa utilização da Internet.

Quarta-feira, Junho 24, 2009

Prêmio Príncipe de Astúrias 2009

O escritor albanês Ismail Kadaré foi anunciado hoje como o vencedor do Príncipe de Astúrias de Literatura de 2009 com uma premiação de 50 mil euros e direito a uma escultura criada por Joan Miró.

Ismail Kadaré é bastante conhecido no Brasil por conta de seu clássico "Abril Despedaçado" que foi adaptado para o cinema por Walter Salles. Parece que o meu profético amigo Barros já estava adivinhando esta premiação e publicou uma postagem especial sobre Kadaré no início de Abril (ver detalhes aqui).

Entre os finalistas estavam o holandês Cees Nooteboom, o italiano Antonio Tabucchi, o tcheco Milan Kundera e o britânico Ian McEwan. Mais de 30 candidaturas de 25 países concorreram ao Prêmio Príncipe de Astúrias de Literatura 2009.

No ano passado, a vencedora foi a canadense Margaret Atwood (ver postagem do Mundo de K). Autores como Mario Vargas Llosa, Paul Auster, Doris Lessing, Susan Sontag, Amós Oz e a brasileira Nélida Piñon já receberam esta premiação, ver relação completa com links abaixo:

2008 - Margaret Atwood - Canadá

2007 - Amos Oz - Israel

2006 - Paul Auster - EUA

2005 - Nélida Piñon - Brasil

2004 - Claudio Magris - Itália

2003 - Fatema Mernissi - Marrocos

2003 - Susan Sontag - EUA

2002 - Arthur Miller - EUA

2001 - Doris Lessing - Reino Unido

2000 - Augusto Monterroso - Guatemala

1999 - Günter Grass - Alemanha

1998 - Francisco Ayala - Espanha

1997 - Álvaro Mutis - Colômbia

1996 - Francisco Umbral - Espanha

1995 - Carlos Bousoño - Espanha

1994 - Carlos Fuentes - México

1993 - Claudio Rodríguez - Espanha

1992 - Francisco Morales Nieva - Espanha

1991 - Povo de Porto Rico

1990 - Arturo Uslar Pietri - Venezuela

1989 - Ricardo Gullón - Espanha

1988 - Carmen Martín Gaite - Espanha

1988 - José Ángel Valente - Espanha

1987 - Camilo José Cela - Espanha

1986 - Rafael Lapesa Melgar - Espanha

1986 - Mario Vargas Llosa - Peru

1985 - Ángel González - Espanha

1984 - Pablo García Baena - Espanha

1983 - Juan Rulfo - México

1982 - Miguel Delibes Setién - Espanha

1982 - Gonzalo Torrente Ballester - Espanha

1981 - José Hierro Real - Espanha

Terça-feira, Junho 23, 2009

Strange Maps - Shoe World

Estou sempre visitando o site Strange Maps e nunca me canso de descobrir as mais estranhas curiosidades sobre locais existentes e inexistentes, vale muito a pena e seria impossível resumir aqui, não é para menos que esta página já tem mais de onze milhões de visitantes e sem qualquer tipo de apelação! A ilustração acima é uma criação do chargista jordaniano Emad Hajjaj, inspirada naturalmente pelo mapa da Itália. Ver maiores explicações aqui.

Nota: Em tempo, outra excelente recomendação do blog amigo Ilusão da Semelhança sobre mapas: Visual Complexity.

Terça-feira, Junho 16, 2009

No Mundo dos Livros - José Mindlin

José Mindlin - No Mundo dos Livros - Editora Agir - 103 páginas - Publicação 2009.

Era de se esperar que o bibliófilo José Mindlin, com 94 anos e um acervo de mais de 38 mil obras, eleito em 2006 membro da Academia Brasileira de Letras, escrevesse um livro rebuscado e de difícil entendimento para o grande público, mas o que percebemos é um homem com coração de menino que conta a sua relação afetiva com os livros e a literatura com extrema simplicidade e, principalmente, sinceridade. Percebe-se que a paixão de Mindlin por seus livros não está ligada unicamente à raridade do exemplar ou seu valor de mercado, mas sim com a importância relativa para a história da literatura.

Um livro muito agradável de se ler, onde Mindlin elege suas obras e autores preferidos da literatura universal, com grande destaque para os brasileiros Machado de Assis, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, Erico Veríssimo, José de Alencar, Manuel Antonio de Almeida e Mário de Andrade.

Segundo a biografia disponível no site da ABL, José Mindlin fez em Maio de 2006 a doação de cerca de 15 mil obras da sua Biblioteca Brasiliana para a USP. No conjunto doado à USP, constam obras de literatura, história, sociologia, poesia. Dentre as raridades estão documentos do século XVI com as primeiras impressões que padres jesuítas tiveram do Brasil, jornais anteriores à Independência e manuscritos que resgatam a gênese literária de grandes obras, como Sagarana (de Guimarães Rosa) e Vidas Secas (de Graciliano Ramos).

Sexta-feira, Junho 12, 2009

A Chave de Casa - Tatiana Salem Levy

Tatiana Salem Levy - A Chave de Casa - Editora Record - 208 páginas - Publicação 2007.

O que surpreende nesta autora é a segurança e maturidade logo no primeiro romance, lidando com sua "autoficção" e estilhaços de memória em uma narrativa polifônica, bem ao estilo do mestre Lobo Antunes. A autora/personagem ganha de seu avô uma chave da casa em que ele morou na Turquia, antes de vir ao Brasil, e o pedido de que retorne à cidade turca de Esmirna para encontrar a casa e parentes judeus. A narrativa passa por épocas diferentes da vida da personagem: a chegada de seu avô ao Brasil, momentos dolorosos de seus pais durante a ditadura militar, o seu relacionamento intenso com um homem violento, a sua viagem à Turquia e a sofrida morte da mãe.

No parágrafo de abertura Tatiana deixa clara a responsabilidade que enfrenta por carregar a história de sua ascendência: "Escrevo com as mãos atadas. Na concretude imóvel do meu quarto, de onde não saio há longo tempo. Escrevo sem poder escrever e: por isso escrevo. De resto, não saberia o que fazer com este corpo que, desde a sua chegada ao mundo, não consegue sair do lugar. Porque eu já nasci velha, numa cadeira de rodas, com as pernas enguiçadas, os braços ressequidos. Nasci com cheiro de terra úmida, o bafo de tempos antigos sobre o meu dorso. Por mais estranho que isso possa parecer, a verdade é que nasci com os pés na cova. Não falo de aparência física, mas de um peso que carrego nas costas, um peso que me endurece os ombros e me torce o pescoço, que me deixa dias a fio – às vezes um, dois meses – com a cabeça no mesmo lugar. Um peso que não é de todo meu, pois já nasci com ele. Como se toda vez em que digo “eu” estivesse dizendo “nós”. Nunca falo sozinha, falo sempre na companhia desse sopro que me segue desde o primeiro dia."

Me identifiquei muito com os momentos de despedida da mãe, que sofre de uma doença incurável, passagens tristes e verdadeiras: "Você estava sentada no sofá com ar de derrota quando me aproximei e sussurrei em seu ouvido: não faz mal. Se tiver de mudar o mundo, iremos juntas. Não importa aonde for, faremos outro pacto e, se mais tarde for preciso, outro, e depois outro e outro. Faremos quantos pactos forem necessários, mudaremos de mundo quantas vezes nos exigirem, mas uma coisa é certa: minhas mãos estarão sempre coladas às suas."

Tatiana Salem Levy é escritora, tradutora e doutora em Estudos de Literatura. Publicou o livro A experiência do fora: Blanchot, Foucault e Deleuze (Relume Dumará) e contos na revista Ficções 11 (7 letras) e nas antologias Paralelos (Agir) e 25 mulheres que estão fazendo a nova literatura brasileira (Record). O romance de estréia A chave de casa ganhou o prêmio São Paulo de Literatura, autor estreante em 2008. A Chave de Casa foi publicado originalmente no primeiro semestre de 2007, em Portugal, pela editora Cotovia.

Sábado, Junho 06, 2009

Dave Matthews - Crush

Nascido em Johanesburgo, África do Sul, Dave Matthews já vendeu mais de 20 milhões de cópias nos EUA com a sua Dave Matthews Band, conhecida como DMB. Foi trabalhando como bartender no Miller's, um dos principais pontos de encontro e apresentações do cenário musical de Charlottesville, Virginia, que Dave conheceu, em 1990, os futuros integrantes da banda.

Escrever uma letra sobre amor e relacionamento não é uma tarefa fácil, principalmente em língua inglesa, onde muito já se escreveu sobre este tema e todas as possibilidades já foram pensadas, fazendo com que o risco de parecer repetitivo seja grande. Dave Matthews conseguiu escapar do lugar comum com a música abaixo, um verdadeiro hino à paixão. A versão acústica ficou perfeita com a ajuda de Tim Reynolds, ressaltando a beleza da canção. A apresentação do vídeo é no Radio City Music Hall em 22/04/2007.

Crush

Crazy, how it feels tonight.
Crazy, how you make it all alright love.
You crush me, with the things you do,
I do, for you, anything too oh.
Sitting, smoking, feeling high.
And in this moment, ah, it feels so right.

Lovely lady, I am at your feet, oh, God I want you so badly.
And I wonder this could tomorrow be so wondrous as you there sleeping.

Lets go, drive til the morning comes.
And watch the sunrise, and fill our souls up.
Well drink some wine til we get drunk, yes...

Its crazy, Im thinking, just knowing that the world is round.
Im here Im dancing on the ground.
Am I right side up or upside down, and is this real, or am I dreaming?

Lovely lady, let me drink you, please, I wont spill a, drop no, I promise you.
Lying under this spell you cast on me.
Each moment the more I love you. crush me, come on. oh, yes.

Its crazy Im thinking, just knowing that the world is round.
Im here Im dancing on the ground.
Am I right side up or upside down?
Is this real, oh lord, or am I dreaming?

Lovely lady, I will treat you sweetly, adore you, I mean, you crush me.
Oh its times like these when my faith I feel.
I know, how I love you. come on, come on, baby.

Its crazy, Im thinking just as long as youre around.
Im here Ill be dancing on the ground.
Am I right side up or upside down?
To each other, well be facing.
My love, my love, well beat back the pain weve found.
You know, I mean to tell you all the things Ive been thinking, deep inside my Friend.
With each moment the more I love you. crush me, come on, baby.

So much you have, given love, that I would give you back again and again.
Oh, the love, many now hold you but please, please, just let me, always

Nota: O Site da Dave Matthews Band no Brasil disponibiliza farto material sobre a biografia e discografia da banda, além das letras traduzidas para quem se cadastrar.

Quarta-feira, Junho 03, 2009

Sylvia Plath - The Bell Jar (A Redoma de Cristal)

Sylvia Plath - A Redoma de Cristal - Editora Artenova - 264 páginas - Publicação 1971 - Tradução de Maria Luiza Nogueira, Nota Bibliográfica de Lois Ames (fora de catálogo).

Um livro difícil, quase tão difícil quanto a própria Sylvia Plath e que foi publicado pela primeira vez em Londres, Janeiro de 1963, sob o pseudônimo de Victoria Lucas devido às dúvidas que a autora tinha sobe o seu valor literário e também pelos possíveis transtornos que seu único romance poderia causar à vida das pessoas com quem ela se relacionava já que se trata de uma obra francamente autobiográfica.

Esther Greenwood é o alter ego de Sylvia Plath, uma jovem inteligente e talentosa que não consegue vencer as crises de depressão e angústia que enfrenta devido à sua inadaptação à futilidade da sociedade americana dos anos 50 e o fracasso nos seus relacionamentos com os homens, as amigas e a própria mãe. Sylvia Plath consegue descrever com clareza analítica o processo de degradação mental de sua personagem, as diversas tentativas de suicídio e o sofrimento com os tratamentos de eletrochoque a que foi submetida.

Uma narrativa dolorosa e que descreve em detalhes o raciocínio de um ser humano em crise, mas ainda assim com uma racionalidade assustadora, como no trecho a seguir: "Ultimamente eu mesma havia pensado em entrar para a Igreja Católica. Eu sabia que os católicos achavam o suicídio um pecado horrível. Mas talvez, se esse era o caso, pudessem ter um meio eficiente de me persuadir a não me matar. Claro que eu não acreditava na vida depois da morte, nem no nascimento virgem, nem na Inquisição, nem na infalibilidade daquele Papa pequenininho e de cara de macaco, nem nada disso, mas eu não precisava deixar o padre perceber isso, eu podia simplesmente concentrar-me no meu pecado e ele me ajudaria a arrepender-me."

Alguma sequências fortes se relacionam com a descrição das tentativas de suicídio de Esther, como no trecho a seguir: "Quando eles perguntavam a qualquer velho filósofo romano como ele queria morrer, dizia que rasgaria as veias, num banho quente. Achei que seria fácil, deitada na banheira e vendo a vermelhidão florir dos meus pulsos, jorro após jorro penetrando na água limpa, até que eu me afundasse no sono sob a superfície rubra como papoulas. Mas quando cheguei às vias de fato, a pele do meu pulso parecia tão branca e indefesa que não consegui nada. Era como se o que eu quisesse matar não estivesse naquela pele ou naquele pulso magro e azulado que latejava sob o meu polegar, mas sim em algum outro lugar, mais profundo, mais secreto, e muito mais difícil de ser alcançado."

Pouco tempo depois do lançamento deste livro, na manhã de 11 de Fevereiro de 1963, durante um dos piores invernos ingleses já registrados, Sylvia Plath serviu leite para seus dois filhos, quebrou a vidraça da janela para garantir a ventilação que salvaria a vida das crianças e trancou, vedando cuidadosamente, a porta do quarto. Depois foi até a cozinha e abriu a válvula de gás, colocando sua cabeça dentro do forno, não era a primeira vez que ela tentava o suicido, mas desta vez foi bem sucedida. Ela tinha apenas 31 anos.

Segunda-feira, Junho 01, 2009

Prêmio São Paulo de Literatura 2009

O Prêmio São Paulo de Literatura 2009, concedido pelo governo estadual, anunciou em cerimônia realizada no Festival da Mantiqueira no último dia 30 de Maio, os 10 finalistas do prêmio de melhor romance de 2008 e os 10 finalistas do prêmio de melhor romance de 2008 de autor estreante. Cada vencedor vai receber R$ 200 mil. Os ganhadores serão anunciados no dia 3 de agosto, em cerimônia realizada no Museu da Língua Portuguesa. A edição deste ano contou com 217 concorrentes.

Os livros finalistas foram escolhidos após avaliação de júri formado por professores (Ivan Marques e Marcos Moraes), escritores (Menalton Braff e Fernando Paixão), livreiros (Paula Fabrio e José Carlos Honório), críticos literários (Marcelo Pen e Josélia Aguiar) e leitores (Márcia de Grandi e Mario Vitor Santos). A avaliação final será feita por um segundo grupo de jurados

Em 2008, "O Filho Eterno", de Cristóvão Tezza, venceu a 1ª edição do Prêmio São Paulo de Literatura. A obra foi vencedora na categoria Melhor Livro do Ano. Na categoria Melhor Livro do Ano – Autor Estreante ganhou Tatiana Salem Levy com "A Chave de Casa".

Melhor romance de 2008

(01) Carola Saavedra – Flores Azuis – Cia. das Letras

(02) João Gilberto Noll – Acenos e afagos – Record

(03) José Saramago – A viagem do elefante – Cia. das Letras

(04) Livia Garcia-Roza – Milamor – Record

(05) Maria Esther Maciel – O livro dos nomes – Cia. das Letras

(06) Milton Hatoum – Órfãos do Eldorado – Cia. das Letras

(07) Moacyr Scliar – Manual da Paixão solitária – Cia. das Letras

(08) Ronaldo Correia de Brito – Galiléia – Objetiva

(09) Silviano Santiago – Heranças – Rocco

(10) Walther Moreira Santos – O ciclista – Autêntica Editora

Melhor romance de 2008 - autor estreante

(01) Altair Martins – A parede no escuro – Record

(02) Contado Calligaris – O conto do amor – Cia. das Letras

(03) Estevão Azevedo – Nunca o nome do menino – Terceiro Nome

(04) Francisco Azevedo – O arroz de Palma – Record

(05) Javier Arancibia Contreras – Imóbile – 7Letras

(06) Marcos Vinicius de Freitas – Peixe morto – Autêntica Editora

(07) Maria Cecília G. dos Reis – O mundo segundo Laura Ni – Ed. 34

(08) Rinaldo Fernandes – Rita no pomar – 7Letras

(09) Sérgio Guimarães – Zé, Mizé, camarada André – Record

(10) Vanessa Bárbara e Emílio Fraia – O verão do Chibo – Objetiva

Fontes: Publishnews & Livro Errante

Quinta-feira, Maio 28, 2009

Man Booker International Prize 2009

A escritora canadense Alice Munro foi anunciada ontem como a vencedora do Man Booker International Prize 2009. Esta premiação é concedida a cada dois anos para autores vivos pelo conjunto de suas obras e foi recebida em 2005 por Ismail Kadaré (autor de Abril despedaçado) e em 2007 por Chinua Achebe (autor de O mundo se despedaça).

Ao anunciar a escolha do vencedor, que receberá 60 mil libras (cerca de R$ 190 mil), o júri afirmou que “Alice Munro é conhecida por seus contos e ainda assim ela traz tanta profundidade, inteligência e precisão a cada história quanto romancistas conseguem em uma vida escrevendo. Ler Alice Munro é aprender sempre algo em que você nunca tinha pensado”.

Alice Munro se prepara para lançar um novo livro em outubro deste ano ainda e, no Brasil, já teve dois títulos publicados: Ódio, amizade, namoro, amor e casamento (2004, Globo, 360 pp.) e Fugitiva (2006, Companhia. das Letras, 392 pp.).

Fonte: Publishnews e Barros Bar.

Mais sobre o Man Booker Prize no Mundo de K: Aravind Adiga Booker Prize 2008; Resultado do "Melhor do Booker"; Anne Enright Booker Prize 2007.

Quarta-feira, Maio 27, 2009

Logoff Warning - talvez seja melhor começar a viver a sua vida

No mesmo contexto provocativo da postagem Read Books Not Blogs ou se preferir: "já não está no momento de começar a viver a sua vida?". Dica do excelente blog húngaro Oximoron.

Terça-feira, Maio 26, 2009

Prêmio Portugal Telecom 2009

A sétima edição do Prêmio Portugal Telecom de Literatura em Língua Portuguesa 2009, contemplando as categorias de romance, conto, poesia, crônica, dramaturgia e autobiografia, divulgou na última quarta-feira os 50 livros selecionados para a próxima fase. A premiação contemplará os três vencedores com R$ 100 mil ao primeiro colocado, R$ 35 mil ao segundo e R$ 15 mil ao terceiro.

Segundo informações divulgadas no site, o romance predominou tanto nas inscrições quanto na lista dos selecionados. Do total de 501 livros inscritos, 197 foram romances e dos 50 finalistas, 28 são desse gênero literário. Já os contos, que compareceram novamente este ano em peso, com 88 inscrições, tiveram apenas quatro obras escolhidas pelo júri. Quanto à poesia, diferentemente de outras edições, tiveram 172 inscrições e apenas 12 livros foram selecionados.

A lista completa conta com nomes expressivos como os portugueses José Saramago (“A viagem do elefante”) e António Lobo Antunes (“Ontem não te vi em Babilônia”), além dos brasileiros Dalton Trevisan, Lourenço Mutarelli, Daniel Galera, Moacyr Scliar, Luiz Ruffato, João Gilberto Noll e Milton Hatoum. Em 16 de Setembro será divulgada a lista final com as 10 obras candidatas e no final de Outubro os vencedores do Prêmio Portugal Telecom 2009.

Segue a lista completa em ordem alfabética por títulos:

(01) Lourenço Mutarelli - A arte de produzir efeito sem causa

(02) Luis Nassif - A casa da minha infância

(03) Inês Pedrosa - A Eternidade e o Desejo

(04) Paula Glenadel - A fábrica do feminino

(05) Gustavo Bernardo - A filha do escritor

(06) Miguel Sanches Neto - A primeira mulher

(07) José Saramago - A viagem do elefante

(08) João Gilberto Noll - Acenos e afagos

(09) Marcelo Mirisola - Animais em extinção

(10) Gonçalo Tavares - Aprender a rezar na era da técnica

(11) Fabrício Carpinejar - Canalha!

(12) José Luís Peixoto - Cemitério de pianos

(13) Renata Pallottini - Chocolate amargo

(14) Pádua Fernandes - Cinco lugares da fúria

(15) Eucanaã Ferraz - Cinemateca

(16) Alkmar Santos - Circenses

(17) Annita Costa Malufe - Como se caísse devagar

(18) Luiz Vilela - Contos eróticos

(19) Daniel Galera - Cordilheira

(20) Ruy Espinheira Filho - De paixões e de vampiros

(21) Carola Saavedra - Flores azuis

(22) Ronaldo Correia de Brito – Galiléia

(23) Silviano Santiago - Heranças

(24) Salim Miguel - Jornada com Rupert

(25) José Luiz Tavares - Lisbon blues

(26) Moacyr Scliar - Manual da paixão solitária

(27) Godofredo de Oliveira Neto - Marcelino

(28) Leandro Konder - Memórias de um intelectual comunista

(29) Manoel de Barros - Memórias inventadas - A terceira infância

(30) Carlos Felipe Moisés - Noite nula

(31) Nuno Ramos - Ó

(32) Contardo Calligaris - O conto do amor

(33) Vanessa Barbara - O livro amarelo do Terminal

(34) João Almino - O livro das emoções

(35) Luiz Ruffato - O livro das impossibilidades

(36) Maria Esther Maciel - O livro dos nomes

(37) Dalton Trevisan - O maníaco do olho verde

(38) Luís Carlos Patraquim - O osso côncavo e outros poemas

(39) António Lobo Antunes - Ontem não te vi em Babilônia

(40) Milton Hatoum - Órfãos do Eldorado

(41) Alcione Araújo - Pássaros de vôo curto

(42) Conceição Evaristo - Poemas da recordação e outros movimentos

(43) Predadores - Pepetela

(44) Marcelino Freire - Rasif

(45) Horácio Costa - Ravenalas

(46) Evando Nascimento - Retrato desnatural

(47) Miguel Sousa Tavares - Rio das Flores

(48) Vitor Ramil - Satolep

(49) Rodrigo de Souza Leão - Todos os cachorros são azuis

(50) Mia Couto - Venenos de Deus, remédios do Diabo

Quinta-feira, Maio 21, 2009

Quando o corpo pede um pouco mais de alma

Algumas poucas vezes descobrimos músicas que foram compostas de maneira a acomodar letra e melodia de forma inseparável. Em ocasiões ainda mais raras nos identificamos por algum motivo e a música passa a ser nossa amiga, companheira das horas difíceis. É o caso de "Paciência" de Lenine que dispensa arranjo, banda e cenário. Só voz e violão são suficientes para lembrarmos como a vida é tão rara.

Paciência
(Lenine & Dudu Falcão)

Mesmo quando tudo pede
Um pouco mais de calma
Até quando o corpo pede
Um pouco mais de alma
A vida não pára...

Enquanto o tempo
Acelera e pede pressa
Eu me recuso faço hora
Vou na valsa
A vida é tão rara...

Enquanto todo mundo
Espera a cura do mal
E a loucura finge
Que isso tudo é normal
Eu finjo ter paciência...

O mundo vai girando
Cada vez mais veloz
A gente espera do mundo
E o mundo espera de nós
Um pouco mais de paciência...

Será que é tempo
Que lhe falta prá perceber?
Será que temos esse tempo
Prá perder?
E quem quer saber?
A vida é tão rara
Tão rara...

Mesmo quando tudo pede
Um pouco mais de calma
Até quando o corpo pede
Um pouco mais de alma
Eu sei, a vida não pára
A vida não pára não...

Será que é tempo
Que lhe falta prá perceber?
Será que temos esse tempo
Prá perder?
E quem quer saber?
A vida é tão rara
Tão rara...

Mesmo quando tudo pede
Um pouco mais de calma
Até quando o corpo pede
Um pouco mais de alma
Eu sei, a vida é tão rara
A vida não pára não...

A vida não pára...
A vida é tão rara...

Sexta-feira, Maio 15, 2009

20 traições famosas da literatura

A traição, em seu sentido mais amplo, não se limita obviamente à infidelidade entre casais, seja ela anunciada ou repentina, virtual ou real, consentida ou desconhecida. A traição pode ser também de ordem ideológica, difamatória, familiar, profissional ou até mesmo em relação aos nossos próprios ideais, seja qual for o tipo de traição a deslealdade é sempre amarga e imperdoável.

Na literatura, a abordagem mais constante e, aparentemente, mais difícil de superar é a infidelidade conjugal. A lista abaixo é uma amostra do que já se escreveu sobre este tema em ordem cronológica. O meu clássico preferido nesta área é mesmo Madame Bovary, exemplo de traição explícita e imagem que escolhi como abertura.

01. Otelo - William Shakespeare (1603)

02. As Relações Perigosas - Choderlos De Laclos (1782)

03. Madame Bovary - Gustave Flaubert (1857)

04. Ana Karenina - Leon Tolstói (1875)

05. O Primo Basílio - Eça de Queirós (1878)

06. Memórias Póstumas de Brás Cubas - Machado de Assis (1881)

07. Dom Casmurro - Machado de Assis (1899)

08. O Amante de Lady Chatterley - D. H. Lawrence (1928)

09. Voragem - Junichiro Tanizaki (1931)

10. Diários Íntimos - Anaïs Nin (1932)

11. Trópico de Câncer - Henry Miller (1934)

12. São Bernardo - Graciliano Ramos (1934)

13. Lolita - Vladimir Nabokov (1955)

14. Perdoa-me por me traíres - Nelson Rodrigues (1957)

15. Gabriela, Cravo e Canela - Jorge Amado (1958)

16. Bonitinha, mas Ordinária - Nelson Rodrigues (1962)

17. Pantaleão e as Visitadoras - Mario Vargas Llosa (1973)

18. Hollywood - Charles Bukowski (1989)

19. Trilogia Suja de Havana - Pedro Juan Gutiérrez (1998)

20. Equador - Miguel de Sousa Tavares (2003)

Outras listas top 20 do Mundo de K: 20 personagens mentalmente desequilibrados; 20 mortes inesquecíveis da literatura mundial; 20 personagens femininas da literatura mundial; 20 classificações de livros segundo Italo Calvino; 20 pensamentos desconcertantes (mas verdadeiros) de Woody Allen.

Quarta-feira, Maio 06, 2009

Offshore Technology Conference 2009

Durante esta semana estarei participando da 40º edição da "Offshore Technology Conference" em Houston, Texas. Este é o maior evento mundial da área offshore, reunindo profissionais, empresas prestadoras de serviço e indústrias do ramo. Apesar da gripe suína a feira não sofrerá nenhuma alteração em sua programação com a participação de representantes de 110 países. Nesta semana peço desculpas, portanto, por algum atraso na atualização e respostas aos comentários do Mundo de K.


Quarta-feira, Abril 29, 2009

Capas de Livros

Você se considera incluído naquela categoria de leitores que simplesmente não consegue resistir a uma bela capa? Já comprou um livro influenciado pelo design, ilustração ou acabamento? Então certamente vai adorar o site: Book Cover Archive que apresenta praticamente tudo relacionado à profissão de designer de livros, incluindo links para ilustradores e empresas especializadas, além de blogs específicos deste tema. Eu mesmo não me considero um fetichista nesta área, mas não encontro o menor prazer em ler um livro através de um monitor ou em um desses novos aparelhos do tipo "e-reader". Livro tem que ter cheiro e textura, por mais absurdo que isto possa parecer.

Segue uma relação de links de ilustradores especializados em design de livros: Mark Abrams, Kelly Blair, Milan Bozic, Roberto de Vicq de Cumptich, David Drummond, David Gee, Jonathan Gray, Jamie Keenan, Chip Kidd, Gregg Kulick, Mark Melnick, Peter Mendelsund, David Pearson, Isaac Tobin, Megan Wilson, Henry Sene Yee, Helen Yentus.

E aqui uma relação de sites e blogs ligados ao assunto: The Casual Optimist, The Book Design Review, Book Covers Anonymous, Covers, Faceout Books, Judge a Book..., Tal Designz, The Penguin Blog, Peter Mendelsund's Jacket Mechanical, Readerville Most Coveted Covers, Old-Timey Paperbacks, War of the Worlds cover archive, The Pelican Project, Joe Kral's Penguin Collection.

Terça-feira, Abril 21, 2009

Biblioteca Digital Mundial - UNESCO

A UNESCO lançou hoje a Biblioteca Digital Mundial (BDM), uma página na Internet que fornecerá acesso gratuito a manuscritos, mapas, livros, filmes e gravações raras, além de impressões e fotografias de bibliotecas e arquivos de todo o mundo. Desenvolvida por uma equipe da Biblioteca do Congresso dos EUA, a BDM contou com a assistência técnica da Biblioteca Alexandrina de Alexandria, no Egito, além de várias outras instituições mundiais, incluindo o Brasil.

Segundo o site da UNESCO, a Biblioteca exibirá imagens de ossos de oráculos e epitáfios cedidas pela Biblioteca Nacional da China; manuscritos científicos árabes da Biblioteca e Arquivo Nacionais do Egito; fotos históricas da América Latina fornecidas pela Biblioteca Nacional do Brasil; o Hyakumanto Darani, publicação do ano 764 cedida pela Biblioteca Nacional do Japão; a famosa “Bíblia do Demônio” do século XIII, da Biblioteca Nacional da Suécia; e trabalhos de caligrafia árabe, persa e turca de coleções da Biblioteca do Congresso dos EUA.

Os principais objetivos da Biblioteca Digital Mundial são:
Promover a compreensão internacional e intercultural;
Expandir o volume e a variedade de conteúdo cultural na Internet;
Fornecer recursos para educadores, acadêmicos e o público em geral;
Desenvolver capacidades em instituições parceiras, a fim de reduzir a lacuna digital dentro dos e entre os países.

Dica: Vísceras Literárias

Segunda-feira, Abril 20, 2009

A síndrome do segundo romance - The Times 10 great 2nd novels

É muito comum que os autores se sintam pressionados, após uma estréia literária de destaque, a manter o mesmo nível de qualidade elevado em seu segundo romance. Este fato acaba invariavelmente afetando o desempenho do escritor de forma positiva ou negativa. O jornal inglês The Times selecionou dez casos de cada tipo, primeiramente autores que foram extremamente felizes no lançamento de um segundo romance (ver lista original) e, em contrapartida, dez casos de fracassos que ficaram muito aquém das expectativas de público e crítica (ver lista original). Resumi abaixo apenas os dez casos de sucesso:

(1) Pride and Prejudice (Orgulho e Preconceito) - Jane Austen (1813)

Este romance, considerado a obra prima de Jane Austen, foi lançado dois anos depois de "Razão e Sensibilidade" e antes dela completar vinte e um anos, deveria ter se chamado "First Impressions".

(2) Ulysses (Ulisses) - James Joyce (1922)

Incomparavelmente superior ao brilhante e autobiográfico romance de estréia "Retrato de Um Artista Quando Jovem", Ulisses marcou toda a história da literatura moderna e, ainda hoje, podemos afirmar que nenhum romance o superou em criatividade e experimentação.

(3) Midnight's Children (Os filhos da meia-noite) - Salman Rushdie (1980)

"Os filhos da meia noite", publicado originalmente em 1980, sucedeu o desconhecido romance de estréia "Grimus" de 1975 e ganhou no ano seguinte o conceituado prêmio de literatura em línga inglesa "Booker Prize". Em 1993, este mesmo romance foi premiado com o título "Booker of Bookers Prize", conferido ao melhor livro publicado nos primeiros vinte e cinco anos deste prêmio (ver aqui a resenha do Mundo de K e aqui a resenha original do The Times de 23/04/1981).

(4) Vile Bodies - Evelyn Waugh (1930)

Pouco conhecido em línga portuguesa, segundo avaliação do Times, "menos estudado e autobiográfico - e muito mais engraçado - que Declínio e Queda", seu romance de estréia.

(5) Oliver Twist - Charles Dickens (1838)

Dispensa apresentações e podemos considerar realmente melhor do que "As aventuras do Sr. Pickwick", romance de estréia de Dickens. De qualquer forma, qualquer parágrafo escrito por Dickens está imortalizado, seja no primeiro, segundo ou último romance (ler aqui um extrato publicado pelo Times em 1837).

(6) Girl With a Pearl Earring (Garota com Brinco de Pérola) - Tracy Chevalier (2000)

Romance que foi bastante popularizado após o lançamento do filme com Scarlett Johansson. A própria autora afirmou que seu primeiro romance "The Virgin Blue", 12000 cópias impressas, é hoje uma peça de colcionador.

(7) The Golden Notebook - Doris Lessing (1962)

Doris Lessing, prêmio Nobel de Literarura de 2007, ler aqui a resenha original deste romance publicada pelo Times em 1962.

(8) Life of Pi (Vida de Pi) - Yann Martel (2001)

Vencedor do Man Booker Prize de 2002, é mais conhecido no Brasil pelo suposto caso de plágio do romance "Max e os Felinos" do escritor brasileiro Moacyr Scliar (ler aqui um extrato publicado pelo Times em 2003).

(9) The Beautiful and Damned (Os Belos e Malditos) - F.Scott Fitzgerald (1922)

Neste caso, acho que o terceiro romance "O Grande Gatsby" de 1925 é que consagrou realmente Fitzgerald.

(10) The Mill on the Floss - George Eliot (1860)

Eliot (nome real Mary Ann Evans) publicou "Adam Bede" in 1859, mas ficou imortalizada pelo segundo romance, um clássico representativo da sociedade inglesa vitoriana.

Sábado, Abril 11, 2009

Jacques Prévert - Retrato de Um Pássaro

Outro expoente do movimento surrealista parisiense, Jacques Prévert (1900 - 1977) talvez seja o poeta mais popular da França. Como destaca Silviano Santiago, Prévert é o autor de "poemas de execução simples e calculada, onde ressaltam as cores cinza do cotidiano, os meios-tons do humor e o colorido berrante do sarcasmo e até mesmo da piada". Ele ficou conhecido também como letrista de canções , sendo Yves Montand e Juliette Gréco alguns dos seus intérpretes mais famosos. Adicionalmente escreveu roteiros para o cinema francês dos anos 40 e 50.

Ainda segundo Silviano Santiago, "O lirismo para Prévert, como para alguns dos nossos poetas de 22, se escreve com a combinação certa de cotidiano e humor, fazendo ressaltar no poema uma visão em pequena escala do homem. Ressalta do poema o pequeno, mas não o comum do homem. Essa visão miniaturizada do homem, em oposição aos grandes painéis sociais e históricos pintados por Eliot em The Waste Land, ou Pound nos Cantos, condiz com a pequenez do ser humano diante de um século que o pulveriza com máquinas, motores, rotativas, engrenagens, guerras, violência e morte".

O poema abaixo (versão original e traduzida) é uma síntese perfeita do lirismo de Prévert, surrealista sim, mas ao mesmo tempo profundamente humano em sua busca por esperança.

Pour faire le portrait d'un oiseau
(Jacques Prévert)

Peindre d'abord une cage
avec une porte ouverte
peindre ensuite
quelque chose de joli
quelque chose de simple
quelque chose de beau
quelque chose d'utile
pour l'oiseau
placer ensuite la toile contre un arbre
dans un jardin
dans un bois
ou dans une forêt
se cacher derrière l'arbre
sans rien dire
sans bouger ...
Parfois l'oiseau arrive vite
mais il peut aussi bien mettre de longues années
avant de se décider
Ne pas se décourager
attendre
attendre s'il le faut pendant des années
la vitesse ou la lenteur de l'arrivée de l'oiseau
n'ayant aucun rapport
avec la réussite du tableau
Quand l'oiseau arrive
s'il arrive
observer le plus profond silence
attendre que l'oiseau entre dans la cage
et quand il est entré
fermer doucement la porte avec le pinceau
puis
effacer un à un tous les barreaux
en ayant soin de ne toucher aucune des plumes de l'oiseau
Faire ensuite le portrait de l'arbre
en choisissant la plus belle de ses branches
pour l'oiseau
peindre aussi le vert feuillage et la fraîcheur du vent
la poussière du soleil
et le bruit des bêtes de l'herbe dans la chaleur de l'été
et puis attendre que l'oiseau se décide à chanter
Si l'oiseau ne chante pas
c'est mauvais signe
signe que le tableau est mauvais
mais s'il chante c'est bon signe
signe que vous pouvez signer
Alors vous arrachez tout doucement
une des plumes de l'oiseau
et vous écrivez votre nom dans un coin du tableau.


Para pintar o retrato de um pássaro
(tradução de Silviano Santiago)

Primeiro pintar uma gaiola
com a porta aberta
pintar depois
algo de lindo
algo de simples
algo de belo
algo de útil
para o pássaro
depois dependurar a tela numa árvore
num jardim
num bosque
ou numa floresta
esconder-se atrás da árvore
sem nada dizer
sem se mexer...
Às vezes o pássaro chega logo
mas pode ser também que leve muitos anos
para se decidir
Não perder a esperança
esperar
esperar se preciso durante anos
a pressa ou a lentidão da chegada do pássaro
nada tendo a ver
com o sucesso do quadro
Quando o pássaro chegar
se chegar
guardar o mais profundo silêncio
esperar que o pássaro entre na gaiola
e quando já estiver lá dentro
fechar lentamente a porta com o pincel
depois
apagar uma a uma todas as grades
tendo o cuidado de não tocar numa única pena do pássaro
Fazer depois o desenho da árvore
escolhendo o mais belo galho
para o pássaro
pintar também a folhagem verde e a frescura do vento
a poeira do sol
e o barulho dos insetos pelo capim no calor do verão
e depois esperar que o pássaro queira cantar
Se o pássaro não cantar
mau sinal
sinal de que o quadro é ruim
mas se cantar bom sinal
sinal de que pode assiná-lo
Então você arranca delicadamente
uma das penas do pássaro
e escreve seu nome num canto do quadro.


O vídeo abaixo, gravado em 2007 por ocasião das homenagens de 30 anos da morte do poeta, é um bom exercício para sentirmos a sonoridade e ritmo do poema em sua versão original.

Quinta-feira, Abril 09, 2009

Boris Vian - A Espuma dos Dias

Boris Vian - A Espuma dos Dias - Editora Nova Fronteira - 207 páginas - Publicação 1984 - Tradução de Elina Motta, pósfacio de Jacques Bens (fora de catálogo).

A vida é uma caixinha de surpresas, principalmente neste "A Espuma dos Dias" do existencialista francês Boris Vian (1920 - 1959). Radicalmente oposto ao cinematográfico e violento noir "Vou Cuspir no Seu Túmulo" (ver aqui resenha do Mundo de K), este romance publicado originalmente em 1947 envolve seis personagens jovens e ingênuos em uma história de amor trágica, utilizando recursos que extrapolam os limites comuns da linguagem em um universo surrealista. Como destaca Jacques Bens no pósfacio, Boris Vian utiliza três tipos de abordagem em sua narrativa. O primeiro considera a palavra em seu sentido literal, exato como em: "uma escada se esconde sob os passos de quem a sobe", no segundo as palavras são alteradas como em "antiquitário" ou "sacristoche" e, no último tipo, o autor inventa livremente palavras e objetos novos, como em "pianococktail", o engraçado instrumento que prepara coktails enquanto é tocado. Estes jogos de palavras são um desafio adicional ao tradutor.

A pureza dos protagonistas que são "adultos com alma de adolescentes" nos emociona, principalmente na história de amor de Colin e Chloé que inicia em um tom francamente alegre e otimista para se transformar aos poucos em uma tragédia determinada pelo mal incurável que destrói Chloé. A amizade dos personagens permeia toda a história que parece querer resumir, através de criativas metáforas, o absurdo da vida adulta. Ficamos mesmo com a bela frase de Colin: "Ocupo meu tempo escurecendo meus momentos mais iluminados, porque a claridade me incomoda".

Chick é amigo de Colin e um "viciado" no filósofo Jean-Sol Partre (Jean Paul Sartre), obcecado em adquirir todo e qualquer documento publicado pelo autor, o que o levará finalmente à destruição, mais uma metáfora que alerta para a valorização da cultura artificial. Boris Vian foi um artista múltiplo: poeta, músico de jazz, cantor, dramaturgo, ator e engenheiro (!), um verdadeiro símbolo da rebeldia juvenil. Ainda segundo o crítico Jacques Bens "O mundo de Vian está fundamentado na linguagem, quer dizer: nasce dela e nela se justifica".

Sábado, Abril 04, 2009

Eric Zener - Arte Figurativa

Eric Zener - adrift, 30 X 40, óleo em painel, 2007

Eric Zener é um artista figurativo da California que produz pinturas que são verdadeiras fotografias, geralmente com temas aquáticos. Uma dica do excelente blog do Fabrício que não costuma falar mais que o necessário, como ele mesmo se define.

Terça-feira, Março 31, 2009

10 autores de romances de um único sucesso - The Times

O jornal inglês The Times selecionou dez romances que provaram ter sido suficientes para eternizar a carreira de seus respectivos autores. A lista tem alguns títulos contestáveis (como toda lista), mas, por outro lado, certas unanimidades no ramo da literatura. A matéria conta com links interessantes para resenhas originais do Times e séries especiais históricas, como a do julgamento de Oscar Wilde.

(1) Harper Lee - To Kill a Mockingbird (1960)

Romance ganhador do Prêmio Pulitzer em 1961, lançado no Brasil com o título de "O Sol é Para Todos". Ver aqui a resenha original da época do lançamento pelo jornal Times.

(2) Margaret Mitchell - Gone With the Wind (1936)

Romance ganhador do Prêmio Pulitzer de 1937 e que originou o clássico do cinema "...E o vento levou" de 1939. Ver aqui a resenha original da época do lançamento pelo jornal Times.

(3) Emily Brontë - Wuthering Heights (1847)

Este tesouro da literatura, publicado no Brasil como "O morro dos ventos uivantes" é um clássico muito à frente do seu tempo. Uma história de amor fora dos padrões normais. Ver aqui o anúncio original da primeira edição no Times (está na terceira coluna quase no final).

(4) J.D.Salinger - Catcher in the Rye (1951)

O romance narra um fim-de-semana na vida de Holden Caulfield, jovem de 16 anos, e acabou se tornando um clássico inspirador para as gerações rebeldes futuras. Publicado no Brasil como "O apanhador no campo de centeio". Nota do Times: Este romance só se enquadra na categoria de "um único sucesso" se considerarmos "Franny and Zooey" de 1961 como conto.

(5) Oscar Wilde - The Picture of Dorian Gray (1891)

O que dizer de "O retrato de Dorian Gray" que ainda não tenha sido dito? Oscar Wilde o campeão dos aforismos (ver esta postagem do Alessandro Martins) acabou só escrevendo um único romance e não precisou de mais nada para se tornar um clássico de todos os tempos. Siga o link do título para ler matérias originais do julgamento de Oscar Wilde no Times.

(6) John Kennedy Toole - A Confederacy of Dunces (1980)

Toole foi o ganhador do Prêmio Pulitzer póstumo de 1981 por este romance publicado em 1980, 11 anos depois de seu suicídio. Pouco conhecido no Brasil.

(7) Sylvia Plath - The Bell Jar (1963)

Único romance da poeta Sylvia Plath, publicado sob o pseudônimo de Victoria Lucas em 1963 é um trabalho autobiográfico que narra os problemas de depressão da autora. Publicado no Brasil como "A redoma de vidro". Ver aqui a resenha original da época do lançamento pelo jornal Times.

(8) Anna Sewell - Black Beauty (1877)

Romance narrado na primeira pessoa a partir do ponto de vista de um cavalo. Pouco conhecido no Brasil.

(9) Boris Pasternak - Dr Zhivago (1957)

Boris Leonidovitch Pasternak ganhou o prêmio Nobel de literatura de 1958 por este romance que narra a revolução russa de 1917 e a guerra civil de 1918 - 1920.

(10) Arundhati Roy - The God of Small Things (1996)

Vencedor do Booker Prize de 1997. Ver um trecho do romance aqui. Publicado no Brasil pela Companhia das Letras como "O Deus das pequenas coisas".

Terça-feira, Março 24, 2009

Ernesto Che Guevara

Reminiscences of the Cuban Revolutionary War - Ernesto Che Guevara - Editora Ocean Press - 314 páginas - Publicação 2006 - Prefácio de Aleida Guevara.

Neste ano em que a revolução cubana completa 50 anos de aniversário é impossível não lembrar do médico argentino Ernesto Guevara de la Serna, mais conhecido por Che Guevara. Para alguns apenas um assassino frio e, para outros, um herói visionário e símbolo da luta do povo latino-americano contra a opressão. Na opinião de Jean Paul Sartre "o ser humano mais completo de nossa época". Este livro é uma reprodução dos diários escritos por Che Guevara durante o período de guerrilha na Sierra Maestra de 1956 a 1959 e comprova a sua habilidade de escritor já anteriormente demonstrada no clássico "Diários de Motocicleta" que foi adaptado para o cinema por Walter Salles em 2004. Praticamente todos os relatos de ações de guerrilha dos rebeldes e sobrevivência na selva foram reproduzidos na monumental biografia escrita muitos anos depois pelo repórter americano Jon Lee Anderson.

Chama a atenção a ingênua declaração dos guerrilheiros no manifesto de 1957, onde é lançado o "slogan de uma grande frente cívica revolucionária compreendendo todos os partidos de oposição política, todas as instituições civis e todas as forças revolucionárias". O programa de governo contaria ainda com a proclamação da liberdade de todos os prisioneiros políticos, civis e militares e absoluta garantia de liberdade da imprensa e rádio, com todos os direitos individuais e políticos garantidos pela constituição. Cinquenta anos depois, podemos constatar como todos os itens acima foram esquecidos no governo de Fidel Castro e seus sucessores.

De qualquer forma, como este blog sempre aborda os temas do ponto de vista da arte, é importante notar como a verdadeira poesia pode extrapolar os limites convencionais da literatura e se confundir com a vida e o destino de seus autores. Nestes casos, podemos distinguir traços premonitórios assustadores, como no poema abaixo, impregnado de emoção e morte, do então jovem Che Guevara. Vamos ao poema:

Eu sei! Eu sei! Se sair daqui, o rio me engolirá... É o meu destino: hoje devo morrer! Mas não, a força de vontade pode superar tudo. Há obstáculos, eu reconheço. Não quero sair. Se tenho que morrer, será nesta caverna.

As balas, o que podem as balas fazer comigo se meu destino é morrer afogado? Mas vou vencer o destino. O destino pode ser conseguido pela força de vontade.

Morrer, sim, mas crivado de balas, destroçado pelas baionetas, se não, não. Afogado não... Uma recordação mais duradoura do que meu nome É lutar, morrer lutando.

(Che Guevara, uma Biografia - Jon Lee Anderson)

O primeiro ponto a destacar é que este poema foi escrito por Che aos 18 anos. Desta época não há qualquer registro de suas futuras inclinações políticas ou guerrilheiras. Era apenas um jovem rebelde comum, de família aristocrática decadente. Nos primeiros versos, podemos sentir claramente o contraste entre a segurança e o risco. Um dilema que iria perseguir o nosso autor por toda a vida, seguir a carreira de médico na Argentina ou se aventurar pelo mundo? A resignação por uma morte violenta (crivado de balas, destroçado pelas baionetas), no lugar da morte lenta pela asma (afogado, não).

A sombra da doença sempre acompanhou Che em todos os momentos, na forma de uma asma violenta que, durante as crises mais fortes, o impossibilitava até mesmo de andar. A força de vontade, o "morrer lutando", foram características marcantes da personalidade de Che. Segundo Lee Anderson "a fé inquebrantável de Che em suas convicções tornou-se ainda mais poderosa por sua invulgar combinação de paixão romântica com pensamento friamente analítico. Essa mistura paradoxal foi provavelmente o segredo da estatura quase mística que atingiu...". Em 1967, aos 36 anos, Che foi assassinado pelo exército boliviano e morreu realmente crivado de balas. Seu corpo ficaria "desaparecido" por 30 anos.

Sábado, Março 21, 2009

Radiohead no Rio

O show de ontem na praça da Apoteose foi perfeito, inesquecível mesmo. Thom Yorke (vocais, guitarra, piano), Jonny Greenwood (guitarra), Ed O'Brien (guitarra), Colin Greenwood (baixo, sintetizador) e Phil Selway (bateria, percussão) mostraram que o Radiohead é a única banda de rock da atualidade que ainda consegue unir criatividade com energia, fazendo dos recursos eletrônicos apenas mais uma ferramenta de trabalho e não um fim em si mesmo. A apresentação demonstrou grande respeito com o público carioca, pois toda a banda tocou por mais de duas horas, incluindo algumas canções de albuns antigos, como "se fosse a primeira vez".

O show foi baseado no último “In rainbows” (2007), mas contou com várias músicas do premiado “Ok computer” (1997) e um final arrepiante com a maravilhosa “Creep” do primeiríssimo “Pablo honey” (1993). Os efeitos de som e luz não deixaram nada a desejar, com destaque para a mistura de imagens dos integrantes da banda com ângulos variáveis ao longo de toda a apresentação. Aconselho acompanhar a versão de São Paulo que será transmitida amanhã (22/03) à partir de 20:30 pelo canal Multishow.

Mais sobre o Radiohead no Mundo de K: Radiohead - OK Computer

Domingo, Março 15, 2009

Guias de Estudo da SparkNotes

Os Guias de Estudo SparkNotes, disponíveis para consulta online gratuita, são ferramentas preciosas para pesquisa, cobrindo as áreas de História, Cinema, Filosofia e Literatura, incluindo uma extensa análise crítica da obra de William Shakespeare. A Sparknotes, originalmente fundada em 1999, por quatro estudantes de Harvard, atualmente é uma propriedade da famosa rede de livrarias americana Barnes & Noble que comprou os direitos em 2001 por US$ 3,5 milhões. Outra ferramenta bem parecida e um pouco mais antiga é a CliffsNotes também americana.

Não podemos chamar os Guias de Estudo da SparkNotes e também da CliffsNotes de simples resenhas, já que as informações excedem em muito o nível de simples material de divulgação disponível hoje na Internet. Na categoria de literatura, por exemplo, podemos consultar sobre a lista de personagens, o contexto histórico da obra analisada, explicações sobre as citações principais e sugestões para leituras adicionais. Ver este exemplo de 1984 de George Orwell da SparkNotes.

Infelizmente esta dica é dependente do domínio da língua inglesa já que ainda não dispomos de uma ferramenta de estudo similar aqui no Brasil e que possa resumir e analisar criticamente as obras de Machado de Assis, Euclides da Cunha, Clarice Lispector etc, ressalvando-se páginas isoladas, geralmente de patrocínio governamental como o Domínio Público.

Terça-feira, Março 10, 2009

O Livro Negro - Orhan Pamuk

Orhan Pamuk - O Livro Negro - Editora Companhia das Letras - 523 páginas - Publicação 2008 - Tradução de Sergio Flaksman com base nas versões inglesa e francesa.

Um romance de estrutura complexa e ao mesmo tempo original onde Orhan Pamuk utiliza temas da cultura oriental para, através de uma narrativa experimental, conseguir ultrapassar os limites da literatura contemporânea mundial. "O Livro Negro" foi lançado na Turquia em 1990, mas só foi traduzido para o inglês em 2006, após os sucessos de "Meu Nome é Vermelho" de 1998 e do romance político "Neve" de 2002 que levaram Pamuk a ser laureado com o Nobel de literatura de 2006. O próprio Orhan Pamuk, por ocasião da última Feira do Livro de Frankfurt, destacou em entrevista à Folha a importância deste livro na sua carreira: "Talvez não seja o mais popular, mas é o mais querido para mim. Na essência, o que eu faço em literatura nasce aí.".

O tema central do livro é baseado em uma trama que pode aparentar uma novela policial, pois trata da procura frenética do jovem advogado Galip pela sua esposa e prima Rüya (cujo nome em turco significa sonho) que desaparece repentinamente após deixar um bilhete de despedida inconclusivo. Ele tem motivos para acreditar que ela tenha um relacionamento amoroso com o famoso jornalista, Celâl Salik, meio-irmão de Rüya e também primo de Galip. Celâl, que se esconde há muitos anos, escrevendo crônicas que são verdadeiros contos, sobre política, estrelas de cinema e gângsteres turcos, histórias familiares, poetas sufis, passando por digressões sobre o hurufismo, uma seita do século XIV que acreditava ser possível encontrar o sentido de nossas vidas em letras codificadas escritas por Alá em nossos rostos.

Os capítulos do "Livro Negro" são intercalados entre a narrativa principal e as crônicas de Celâl Salik, criando uma sensação de labirinto originada por histórias que se desdobram em outras histórias, sempre com uma descrição pormenorizada dos bairros, ruas, mesquitas e lojas de uma Istambul melancólica, habitada por personagens reais ou imaginários, contemporâneos ou históricos. Na verdade, logo descobrimos que este romance não tem nada de literatura policial, mas sim a representação de um grande quebra-cabeças metafísico criado por Pamuk. Galip, ao longo de sua busca pela esposa, acaba desintegrando a sua própria personalidade e transformando-se no próprio Celâl Salik. Este processo lembra muito o conto "Cidade de Vidro" de Paul Auster em "Trilogia de Nova York".

Um dos argumentos mais importantes desenvolvidos por Pamuk e, constantemente citado ao longo do livro, é a dificuldade de sermos nós mesmos: "Existe algum modo de um homem ser apenas quem é?". O próprio Pamuk responde em outro trecho do livro: "(...) o único meio de transformar-se em si mesmo é primeiro ser um outro, ou então perder-se nas histórias contadas por um outro (...)".

"O senhor conhece a história do grande Mevlana sobre a chave? Ontem à noite, por sorte, me veio um sonho sobre o mesmo tema. Tudo à minha volta estava branco, branco como essa neve. E então, de repente, acordei sentindo uma dor terrível, fria, gelada, no meu peito. Parecia que eu tinha uma bola de neve apertando o coração - uma bola de gelo, ou uma bola de cristal -, mas não; era a chave de diamante do grande poeta Rumi Mevlana, pousada no meu peito, em cima do coração. Peguei a chave e levantei da cama, tentando usá-la para abrir a porta do meu quarto, e ela abriu; e me vi num outro quarto onde, na cama, dormia um homem igual a mim, mas que não era eu. Pegando a chave pousada sobre o peito do homem adormecido e deixando a minha em seu lugar, abri a porta do seu quarto: e o quarto seguinte era idêntico, e o outro também, e naquele em que entrei depois vi ainda que havia sombras nesses quartos: outros fantasmas sonâmbulos como eu, todos com uma chave nas mãos. E em cada quarto uma cama, e em cada cama um homem que sonhava como eu! Percebi então que estava no mercado do Paraíso. Mas ali nada era comprado ou vendido, não havia dinheiro nem selos - só rostos e formas humanas. Se você quisesse, podia transformar-se em outra pessoa . Bastava passar o rosto escolhido sobre a face, como uma máscara, para começar uma vida nova. Mas eu sabia que a pessoa em que eu queria me transformar era a que estava no último dos mil e um quartos, mas, quando enfiei a última chave naquela última fechadura, a porta não abriu. Foi então que compreendi: a única chave capaz de abrir aquela porta era a primeira de todas, a chave que eu tinha encontrado em cima do meu peito quando acordara da primeira vez e era fria como o gelo, mas eu não tinha meio de saber onde aquela chave estaria agora ou com quem, qual era o quarto, qual a cama em que eu a deixara e, tomado de um arrependimento terrível, descobri que estava condenado a vagar, como todos os outros infelizes, de quarto em quarto, de porta em porta, trocando uma chave por outra, examinando cuidadosamente cada rosto que encontro mergulhado no sono, para todo o sempre".

Domingo, Março 01, 2009

Livros e Blogs

Os grandes escritores sempre foram, antes de mais nada, grandes leitores, infelizmente a recíproca nem sempre é verdadeira. De qualquer forma, é impossível exercer atividades ligadas à publicação de textos, seja na mídia impressa tradicional ou na blogosfera, sem investir algum tempo em leitura. Esta afirmação aí ao lado, "Read Books Not Blogs", é um tanto quanto provocativa, mas chama a atenção para o debate sobre a qualidade do material em circulação hoje na Internet.

Gostaria de aproveitar então e destacar alguns blogs que, apesar de utilizarem em sua maioria apenas as ferramentas e templates padronizados, tem atingido o potencial criativo desta ferramenta na Internet como forma de expressão e divulgação de idéias, conhecimento ou relacionamento social. Começo pelo blog sai de mim!!! da jovem Natasha Fernanda Tiné, onde descobri esta afirmação espirituosa, ela escreve com muita personalidade, é só ler a descrição do perfil dela e entenderão o que quero dizer.

Na área de literatura e artes, visito regularmente alguns blogs que merecem ser lidos com muito interesse, são eles (a ordem na lista é totalmente aleatória): leituras, Livros & Literatura, poetriz, artefato.k, nós todos lemos, LivroLivre, @ Dis-cursos, linhadepesca, Le Jardin Éphémère, Cadernos da Bélgica, Além do muro da estrada, Ulisses Adirt, Literatura etc., La Strega, Marconi Leal, Diego Viana, LivroErrante, Ágora com dazibao no meio, Non Liquet, Cemitério das Palavras, Ilusão da Semelhança, Libru Lumen, Barros Bar, Ensaios de um ababelado, Blog da Dai, Caderno de Paris, Homo libris, Caleidoscópio, Lady Cronopio, Uns Dias, Livros e mais livros, PorEntreLetras, Curiosa Identidade, Blog do Enríquez, O pássaro impossível, Insanidades, Efigênia Coutinho e sua Poesia, Blog Panorama, Fetiche de Cinéfilo, noVÍ TÁ, Alice Salles, Orgia Literária, Lendo.

Na área de cotidiano e temas gerais, os seguintes blogs valem a visita: Je suis en train de chercher, Ana R., Blog Linha, Inside, Kafka na Praia, Tiro no pé, Minhas impressões , Trouxeste a Chave?, Desígnios & Desejos, Blog do Beagle, No Mundo da Aline, Porto das Crônicas, Reflexos, Bicho-da-Mata, Kuinta com Q.

Sem esquecer também dos blogs (blogues) amigos portugueses: Boca de Incêndio, Metafísica do Esquecimento, Buraco na Parede, Nunca Mais, O cão que comeu o livro, Bibliotecário de Babel, Da Literatura, Os Livros Ardem Mal, Ciberescritas, Página de Rosto.

É bom deixar claro que não citei blogs que já alcançaram um nível profissional inegável como é o caso do Livros e Afins, Polzonoff, O Biscoito Fino e a Massa, Renata Miloni, Pensar Enlouquece. Enfim, tanto material de qualidade a ser visto, lido e acompanhado que definitivamente devemos ler não somente livros, mas também blogs é claro.

Sexta-feira, Fevereiro 27, 2009

Tori Amos

É difícil classificar o trabalho da cantora, compositora e pianista norte-americana Tori Amos em categorias como pop, pop/rock ou rock alternativo. Assim como Björk, desde muito cedo ela insistiu em criar um estilo próprio o que acabou fazendo com que fosse expulsa do conservatório de piano clássico aos onze anos, por não gostar de seguir partituras e tocar apenas de improviso. As composições têm como base uma refinada técnica vocal que permite alcançar uma extensa gama de registros e modulações, com letras que abordam temas bastante distintos como feminismo, religião e sexualidade, sempre com uma abordagem autobiográfica.

Fiquei conhecendo Tori Amos através do CD duplo “To Venus and Back”, lançado em 1999, incluindo um disco gravado em estúdio e o outro ao vivo. Este álbum resume bem a carreira de Tori Amos que alcançou, no final dos nos anos noventa, muito sucesso no mercado americano e mundial (a foto de abertura da postagem é da edição de 1998 da revista Rolling Stone).

Hoje, Tori Amos já deixou de integrar apenas o universo Cult das intérpretes alternativas, tendo vendido mais de 12 milhões de discos em todo o mundo. O novo CD de estúdio, décimo de sua discografia, com o sugestivo título de “Abnormally Attracted to Sin” (Anormalmente Atraída Para o Pecado) está previsto para ser lançado no dia 19 de Março de 2009 com uma apresentação de Tori Amos. Ver maiores detalhes na página da cantora.

O vídeo abaixo, apesar das limitações de qualidade de gravação e um possível atraso na conexão com o Youtube, serve para divulgar a técnica instrumental e vocal de Tori Amos. A música “Cooling” é uma das preferidas de Tori em apresentações ao vivo e ficamos, ao final, um pouco hipnotizados com o refrão que repete em ondas sucessivas: This is cooling, Faster than I can, This is cooling, Faster than I can...

Sábado, Fevereiro 21, 2009

Pierre Gonnord - Retratos da Exclusão

Em uma primeira observação, os retratos do fotógrafo Pierre Gonnord nos deixam na dúvida quanto a estarmos diante de uma fotografia ou de uma pintura holandesa do século XVII, mas ao visitarmos a página deste artista notamos que, apesar da técnica lembrar uma escola de pintura clássica, os seus modelos são bem contemporâneos, geralmente imigrantes de alguma minoria étnica e retirados das ruas de Madri, onde o fotógrafo francês vive desde 1988.

O próprio Pierre Gonnord explica e resume a sua opção de trabalho: "Eu escolho os meus contemporâneos no anonimato das grandes cidades porque os seus rostos narram, por baixo da pele, histórias singulares e insólitas sobre a nossa época. Algumas vezes hostis, quase sempre frágeis e muito frequentemente feridos por trás da opacidade de suas máscaras, eles representam realidades sociais específicas e, por vezes, outro conceito de beleza".

Dica: blogs noVÍ TÁ e In the Labyrinth.

Sábado, Fevereiro 14, 2009

Os 100 livros mais influentes - Times Literary Suplement

O suplemento literário do Jornal Times de 06 de Outubro de 1995 publicou uma lista com os 100 livros que mais influenciaram a cultura ocidental após a Segunda Guerra Mundial. Nesta relação não foram consideradas obras importantes da primeira metade do século XX produzidas por autores como Sigmund Freud, Martin Heidegger, Aldous Huxley e Franz Kafka. Enfim, assim como toda lista é sujeita a contestações e emendas, mas tem como maior mérito relembrar alguns clássicos da nossa época e abranger várias áreas do conhecimento humano, além da literatura, como filosofia, antropologia, economia, história, política etc. Acrescentei a tradução dos títulos com ano de publicação e alguns links, um serviço de utilidade pública.

Livros da década de 1940

(01) Simone de Beauvoir: O Segundo Sexo (1949);
(02) Marc Bloch: Apologia da História (1949);
(03) F. Braudel: O Mundo Mediterrâneo (1949);
(04) James Burnham: A Revolução Gerencial (1941);
(05) Albert Camus: O Mito de Sísifo (1942);
(06) Albert Camus: O Estrangeiro (1942);
(07) R. G. Collingwood: A Idéia de História (1946);
(08) Erich Fromm: O Medo à Liberdade (1941);
(09) T. W. Adorno: Dialética do Esclarecimento (1947);
(10) Karl Jaspers: O Escopo Perene da Filosofia (1948);
(11) Arthur Koestler: O Zero e o Infinito (1940);
(12) Andre Malraux: A Condição Humana (1933);
(13) Behemoth: Estrutura e Prática do Nacional Socialismo (1944);
(14) George Orwell: A Revolução dos Bichos (1945);
(15) George Orwell: 1984 (1949);
(16) Karl Polanyi: A Grande Transformação (1944);
(17) Karl Popper: A Sociedade Aberta e Seus Inimigos (1945);
(18) Paul Samuelson: Introdução à Análise Econômica (1948);
(19) Jean-Paul Sartre: O existencialismo é um Humanismo (1946);
(20) J. Schumpeter: Capitalismo, socialismo e democracia (1942);
(21) Martin Wright: Política do Poder (1946).

Livros da década de 1950

(22) Hannah Arendt: As Origens do Totalitarismo (1951);
(23) Raymond Aron: O ópio dos intelectuais (1955);
(24) Kenneth Arrow: Escolha Social e Valores Individuais (1951);
(25) Roland Barthes: Mitologias (1957);
(26) Winston Churchill: A Segunda Guerra Mundial (1953);
(27) Norman Cohn: A Perseguição do Milênio (1957);
(28) M. Djilas: Uma Análise do Sistema Comunista (1957);
(29) Mircea Eliade: Imagens e Símbolos (1952);
(30) Erik Erikson: Young Man Luther (1958);
(31) Lucien Febvre: Combates pela História (1953);
(32) John Kenneth Galbraith: The Affluent Society (1958);
(33) E. Goffman: A Representação do Eu na Vida Cotidiana (1956);
(34) Arthur Koestler: O Deus que Falhou (1959);
(35) Primo Levi: É Isto um Homem? (1958);
(36) Claude Levi-Strauss: A World on the Wane (1955);
(37) Czeslaw Milosz: A Mente Cativa (1953);
(38) Boris Pasternak: Doutor Jivago (1958);
(39) David Riesman: A Multidão Solitária (1950);
(40) Herbert Simon: Modelos do Homem (1957);
(41) C. P. Snow: As Duas Culturas (1959);
(42) Leo Strauss: Direito Natural e História (1953);
(43) J. L. Talmon: As Origens da Democracia Totalitária (1952);
(44) A. J. P. Taylor: The Struggle for Mastery in Europe (1954);
(45) Arnold Toynbee: Um Estudo da História (1934 - 61);
(46) Karl Wittfogel: Despotismo Oriental (1957);
(47) Ludwig Wittgenstein: Investigações Filosóficas (1953).

Livros da década de 1960

(48) Hannah Arendt: Eichmann em Jerusalém (1963);
(49) Daniel Bell: O Fim da Ideologia (1960);
(50) Isaiah Berlin: Four Essays on Liberty (1969);
(51) Albert Camus: Notebooks 1935 -1951 (1964);
(52) Elias Canetti: Massas e Poder (1960);
(53) Robert Dahl: Quem Governa? (1961);
(54) Mary Douglas: Pureza e Perigo (1966);
(55) Erik Erikson: A Verdade de Gandhi (1969);
(56) Michel Foucault: História da Loucura (1961);
(57) Milton Friedman: Capitalismo e Liberdade (1962);
(58) Alexander Gerschenkron: Atraso Econômico (1962);
(59) Antonio Gramsci: Cadernos do Cárcere (1960);
(60) H. L. A. Hart: O Conceito da Lei (1961);
(61) Friedrich von Hayek: A Constituição da Liberdade (1960);
(62) Jane Jacobs: Morte e Vida de Grandes Cidades (1961);
(63) Carl Gustav Jung: Memórias, Sonhos e Reflexões (1960);
(64) Thomas Kuhn: A estrutura das revoluções científicas (1962);
(65) Emmanuel Le Roy Ladurie: The Peasants of Languedoc (1966);
(66) Claude Levi-Strauss: The Savage Mind (1962);
(67) Konrad Lorenz: A Agressão (1966);
(68) Thomas Schelling: A Estratégia do Conflito (1960);
(69) Fritz Stern: The Politics of Cultural Despair (1961);
(70) E. P. Thompson: Formação Classe Operária Inglesa (1963).

Livros da década de 1970

(71) Daniel Bell: As Contradições Culturais do Capitalismo (1976);
(72) Isaiah Berlin: Pensadores Russos (1978);
(73) Ronald Dworkin: Levando os Direitos à Sério (1977);
(74) Clifford Geertz: A Interpretação das Culturas (1973);
(75) Albert Hirschman: Exit, Voice, and Loyalty (1970);
(76) Leszek Kolakowski: Correntes Principais do Marxismo (1976);
(77) Hans Kueng: Ser Cristão (1977);
(78) Robert Nozick: Anarquia, Estado e Utopia (1974);
(79) John Rawls: Uma Teoria da Justiça (1971);
(80) Gershom Scholem: A Idéia Messiânica no Judaísmo (1971);
(81) Ernst Friedrich Schumacher: Small Is Beautiful (1973);
(82) Tibor Scitovsky: The Joyless Economy (1976);
(83) Quentin Skinner: Bases do Pensamento Político Moderno (1978);
(84) Alexander Solzhenitsyn: Arquipélago Gulag (1973 - 1978);
(85) Keith Thomas: Religião e o Declínio da Magia (1971).

Livros da década de 1980 e além

(86) Raymond Aron: Memórias (1983);
(87) Peter Berger: A Revolução Capitalista (1986);
(88) Norberto Bobbio: O Futuro da Democracia (1984);
(89) Karl Dietrich Bracher: A Experiência Totalitária (1987);
(90) John Eatwell and others: Dicionário de Economia - 4 vol. (1987);
(91) Ernest Gellner: Nações e Nacionalismo (1984);
(92) Vaclav Havel: Living in Truth (1986);
(93) Stephen Hawking: Uma Breve História do Tempo (1988);
(94) Paul Kennedy: Ascensão e Queda das Grandes Potências (1987);
(95) Milan Kundera: O Livro do Riso e do Esquecimento (2001);
(96) Primo Levi: Os Afogados e os Sobreviventes (1990);
(97) Roger Penrose: A Mente Nova do Rei (1993);
(98) Richard Rorty: Filosofia e o Espelho da Natureza (1979);
(99) Amartya Sen: Recursos, Valores e Desenvolvimento (1984);
(100) Michael Walzer: Esferas da Justiça (1983).

Quinta-feira, Fevereiro 12, 2009

Manhã de Carnaval - Sungha Jung

Vem se aproximando o Carnaval e constatamos novamente o rápido processo de degradação da cultura popular brasileira dos últimos tempos com o interminável lançamento automático de sambas-enredo industrializados e pagodeiros românticos. No entanto, houve uma época em que o termo cultura popular podia ser aplicado com propriedade às composições, onde melodia e letra representavam um esforço de originalidade e qualidade em categorias como o chorinho, samba-canção e mesmo nas antigas marchas carnavalescas.

Um bom exemplo de composição mais elaborada é "Manhã de Carnaval" de Luiz Bonfá e Antônio Maria, incluída na trilha sonora do filme "Orfeu Negro" em 1959 e que consolidou o fenômeno da Bossa Nova, com projeção internacional no final da década de 50. É muito comum músicos de Jazz como Joe Pass, John McLaughlin e George Benson, incluírem nos seus repertórios esta música que já se transformou em um standard para improvisações, assim como "Night and Day" e "My Funny Valentine".

Sungha Jung é um violonista prodígio da Coréia do Sul com apenas doze anos e uma centena de vídeos no Youtube. Existem interpretações melhores na Internet de "Manhã de Carnaval" como a de Baden Powell ou do próprio Luiz Bonfá, mas este vídeo do pequeno Sungha Jung demonstra como a música não tem fronteiras, mesmo que seja com um pequeno sotaque asiático!

Manha de Carnaval - Sungha Jung
Enviado por
vito_di_leo

Sexta-feira, Janeiro 30, 2009

John Updike (1932 - 2009)

Poderia iniciar este texto afirmando que John Updike, um dos maiores escritores da literatura norte-americana, morreu no dia 27 de Janeiro, aos 76 anos, mas isto seria uma grande tolice; todos nós sabemos que os grandes autores não morrem jamais, eles são imortais assim como suas obras. Também é verdade que não existe homenagem maior para um escritor do que citar e reler os seus livros, pois que assim seja.

Gostaria de citar alguns trechos de uma sequência inesquecível, incluída no romance Coelho Corre, parte da tetralogia sobre a vida de Harry Angstrom: Coelho Corre (1960), Coelho em Crise (1971), Coelho Cresce (1981) e Coelho Cai (1990). As partes abaixo foram extraídas do capítulo onde a mulher de Harry, abandonada durante a madrugada, fica só no apartamento com o bebê e o filho pequeno. Ela começa a beber e a coisa toda acaba em tragédia. Não é possível evoluir muito com um tema assim no ambiente de um blog, mas serve como exemplo do trabalho de John Updike. Omiti a parte final, pos é muito chocante.

"As últimas horas são como se ela tivesse que passar com seus pensamentos por uma curva apertada num cano e não conseguisse. A toda hora ela chega no ponto em que ele diz para ela 'Vire pro outro lado´ e não consegue passar, não consegue sentir pânico nem sufocamento (...) Coloca no copo dois dedos de uísque, com pouca água porque senão ia levar muito tempo para beber, e sem gelo porque se fôsse tirar o gelo da fôrma com o barulho as crianças podiam acordar. Vai com sua dose de uísque até a janela e fica olhando por cima dos telhados cobertos de piche da cidade adormecida (...) Ela sente a rotina do dia de trabalho se aproximando como um exército de luz, sente as casas de bordas escuras lá embaixo potencialmente despertas, abrindo-se como castelos de onde vão sair homens, e é um pena seu marido não conseguir entrar neste ritmo que mais uma vez recomeça (...) Entra na cozinha e prepara outro drinque, mais forte que o primeiro, pensando que afinal de contas já é tempo de ela se divertir um pouco. Não teve nem um momento de descanso desde que voltou do hospital (...) Ainda resta um terço da garrafa. O cansaço faz arder as pálpebras ressecadas, mas ela não tem vontade de voltar para a cama. A cama lhe inspira horror porque Harry devia estar deitado nela. Esta ausência é um buraco que se alarga, e ela põe um pouco de uísque dentro dele mas não basta, e quando ela vai até a janela pela terceira vez já está claro o bastante para ver como é desoladora a paisagem (...) Liga a televisão, e a faixa de luz que brota de repente no retângulo verde desperta felicidade em seu peito, mas ainda é cedo demais, a luz é só um brilho sem sentido e o som é só um chiado (...) Quando pega o bebê outra vez, sente as perninhas molhadas e pensa em trocar a fralda mas sensatamente se dá conta de que está bêbada e pode machucá-lo com os alfinetes. Fica muito orgulhosa de ter tido esta idéia e diz a si mesma que não vai beber mais para poder trocar a fralda do neném daqui a uma hora (...) ela vai à cozinha e prepara um drinque, quase que só gelo, só para fechar de vez o grande buraco que está ameaçando se abrir dentro dela outra vez. Bebe um golinho só e é como um raio de luz azul que faz tudo ficar claro. É só aguentar mais este intervalo que no final do dia Harry estará de volta (...) O líquido amarelado derrama-se sobre os cubos de gelo fumegantes e não pára quando ela manda parar; ela retira a garrafa irritada, e gotas grandes pingam na pia (...)".

Segunda-feira, Janeiro 26, 2009

José Saramago - A Viagem do Elefante

José Saramago - A Viagem do Elefante - Editora Companhia das Letras - 256 páginas - Publicação 2008 - Revisão Carmen S. da Costa.

Um novo lançamento de José Saramago e todos nós, pobres leitores compulsivos ou talvez dependentes de sua prosa caudalosa, podemos nos transformar imediatamente em seres humanos mais felizes, reconhecer a marca inconfundível do autor, tendo a certeza de ler um dos maiores pensadores do nosso tempo e, segundo Harold Bloom, o maior ficcionista da atualidade.

Apesar de deixar bem clara a minha idolatria por Saramago, único autor laureado com um prêmio Nobel em língua portuguesa, é certo que não esperava um clássico romance histórico no mesmo nível e complexidade de "Memorial do Convento" ou "História do Cerco de Lisboa", pois esta seria uma tarefa praticamente impossível para qualquer autor contemporâneo, mesmo para José Saramago que, afinal, já está com 86 anos e a saúde bastante debilitada. De fato, este "A Viagem do Elefante", classificado pelo próprio autor como conto, foi escrito durante os sete meses em que lutou pela própria vida e a dedicatória para sua eterna companheira Pilar del Rio não deixa dúvidas sobre a gravidade deste período: "A Pilar, que não deixou que eu morresse".

Mesmo na situação em que foi escrito, no ambiente de um hospital, este livro é uma deliciosa fábula que carrega a tradicional ironia e humor de Saramago sobre um de seus temas prediletos: a eterna fragilidade humana. A narrativa trata da absurda viagem de um simpático elefante chamado Salomão em pleno século XVI que, por idéia de dom João III, rei de Portugal, influenciado por sua esposa Catarina da Áustria, decide presentear o Arquiduque austríaco Maximiliano II com um elefante. Assim nasce a saga épica do pobre paquiderme que teve de percorrer mais de metade da Europa, incluindo uma parte dos Alpes, devido a este capricho real.

José Saramago, como sempre, não parece nem um pouco interessado em fazer as pazes com a igreja católica, pelo contrário, em suas habituais digressões sobre o homem e a religião reflete sobre as incoerências na relação entre o homem, sua fé e os intermediários, uma relação nem sempre razoável como pode ser atestado pelos casos do cura de aldeia que tenta exorcizar o elefante Salomão (levando uma boa lição) e do padre representante da Basílica de Santo Antônio em Pádua que exige um milagre fabricado, pois segundo ele: "Lutero, apesar de morto, anda a causar grande prejuízo à nossa santa religião (...)".

O ambíguo indiano e cornaca, ou tratador de Salomão, é o protagonista secundário da narrativa, pois está claro que Salomão é o principal. Através das peripécias desta personagem, que tenta satisfazer as exigências reais, eclesiásticas e militares antes e durante todo o trajeto de Lisboa até Viena é que Saramago consegue desnudar a falta de bom senso dos homens para alcançar seus objetivos e ambições. O pobre Salomão acaba se tornando o elemento mais racional da caravana e conquistando a simpatia dos leitores. O vídeo abaixo foi publicado no blog da Fundação Saramago sob o título de "uma metáfora da vida humana", acho que esta definição, do próprio Saramago, resume bem o sentido do livro.



Segunda-feira, Janeiro 19, 2009

Bicentenário de Edgar Allan Poe

Este é o selo comemorativo emitido pelo correio americano - United States Postal Service - para o bicentenário de nascimento de Edgar Allan Poe (Boston, 19 de Janeiro de 1809 - Baltimore, 7 de Outubro de 1849), o autor que melhor soube representar o mistério da morte na literatura e que também morreu solitário como a maioria de seus personagens. Segundo afirmação de Jorge Luis Borges: "A literatura atual seria inconcebível sem Whitman e sem Poe" uma verdade incontestável, pelo menos no meu entendimento, pois foi um escritor que marcou os versos de Charles Baudelaire a Fernando Pessoa.

Segundo Ricardo Araújo em Edgar Allan Poe - O Homem e Sua Sombra (Ateliê Editorial - 2002), "O álcool foi um fator importante na vida do poeta. Na verdade, foi um dos responsáveis pela sua prematura morte. Mas não foi o único. Existiam outros. Um deles era sua personalidade ambígua, que se movia entre os antagonismos alegria/melancolia, vida/morte, delicadeza/agressividade, mas que era, antes de mais nada, uma personalidade sensitiva e observadora". Por tantos motivos e, principalmente, por ter marcado definitivamente o meu amor pela literatura e livros, não poderia deixar passar em branco esta data.

A poesia abaixo é o resumo da vida da Poe: "Desde criança eu não fui / como os outros foram / e não vi / como os outros viram (...) Tudo o que amei, só eu amei (...)" - Impossível a tradução completa, sem trair a perfeição dos versos.

Alone
(Edgar Allan Poe)

From childhood's hour I have not been
As others were - I have not seen
As others saw - I could not bring
My passions from a common spring.
From the same source I have not taken
My sorrow; I could not awaken
My heart to joy at the same tone;
And all I lov'd, I loved alone.
Then - in my childhood - in the dawn
Of a most stormy life - was drawn
From ev'ry depth of good and ill
The mystery which binds me still:
From the torrent, or the fountain,
From the red cliff of the mountain,
From the sun that 'round me roll'd
In its autumn tint of gold -
From the lightning in the sky
As it pass'd me flying by -
From the thunder and the storm,
And the cloud that took the form
(When the rest of Heaven was blue)
Of a demon in my view.

Domingo, Janeiro 18, 2009

Arte ou ilusão - Akiyoshi Kitaoka

A edição online da famosa revista Scientific American publicou um artigo no final do ano passado com doze exemplos de Op Art. O trabalho acima é de Akiyoshi Kitaoka, professor de psicologia da Universidade de Ritsumeikan, Kyoto, Japão. Clique aqui para ver a ilustração "Rotating snakes" de 2003 ou siga este link para outros trabalhos mais recentes do mesmo autor, mas pessoas com maior sensibilidade ao enjôo devem ser cuidadosas, tamanha é a sensação de movimento, conforme alerta do próprio site.

O conceito de Optical Art é a expressão artística, de caráter abstrato, com base na ilusão de ótica que provoca a forte ilusão de movimento. Não sei se devemos considerar os trabalhos enquadrados na definição de Op Art como arte ou ciência, mas de qualquer maneira são excelentes imagens para ilustrar blogs, vocês não acham?

Dica: Obvious

Terça-feira, Janeiro 13, 2009

Biblioteca Digital Camões

O Instituto Camões acaba de disponibilizar, através da Biblioteca Digital Camões, mil e duzentos documentos representativos da cultura em língua portuguesa para consulta online sem necessidade de registros ou subscrição. Foram criadas diversas categorias como: arte, estudos literários, história, língua, literatura, música (partituras), pensamento e ciência.

Segundo informação do site, a Biblioteca Digital apresenta autores e edições no domínio público, mas também edições atuais protegidas por direitos e de autores vivos. Sendo assim, existem níveis diferenciados de acesso: (1) apenas leitura, (2) leitura e impressão e (3) leitura, impressão e cópia. A licença de utilização que antecede o download de alguns títulos serve para estabelecer o direito de propriedade de alguma editora.

Finalmente, a declaração do Instituto Camões orienta quanto à finalidade ética e cultural do projeto na Internet: "A Biblioteca Digital Camões não se pretende apresentar como alternativa ou um concorrente de editoras ou livrarias. É uma biblioteca. O trabalho dos editores é insubstituível e fundamental. O reconhecimento dos responsáveis pelas edições é também uma manifestação de respeito pelas pessoas que ganham a vida a fazer e a vender livros, e que aceitaram participar conosco nesta missão de divulgação da língua e cultura portuguesas no mundo".

Vale lembrar que, no Brasil, temos a excelente página do Domínio Público, criada pelo Governo Federal, onde podemos pesquisar, por exemplo, toda a obra de Machado de Assis que está disponível para download em formato pdf.

Terça-feira, Janeiro 06, 2009

Virginia Woolf - Contos Completos

Virginia Woolf - Contos Completos - Editora Cosac Naify - 472 páginas - Publicação 2005 - 3º reimpressão 2008 - Fixação de Texto e Notas de Susan Dick, Projeto Gráfico de Luciana Facchini, Tradução de Leonardo Fróes.

Novamente a editora Cosac Naify surpreende ao realizar um trabalho de excelência editorial, desta vez com o lançamento da coleção “Mulheres Modernistas” que inclui tratamento gráfico diferenciado, novas traduções e alguns textos inéditos de autoras do nível de Virginia Woolf, Katherine Mansfield, Karen Blixen, Marguerite Duras, Gertrude Stein e Flannery O'Connor.

Este volume, traduzido do original "The Complete Shorter Fiction of Virginia Woolf", apresenta um apêndice com notas detalhadas sobre a origem de cada um dos contos, ano de publicação e particularidades do processo criativo e biográfico da autora. Na parte final foi incluída uma bibliografia com extensa relação de trabalhos de ficção, ensaios, diários e correspondência lançadas no Brasil e exterior. Virginia Woolf (1882 - 1941) utilizou nos contos, assim como em seus famosos romances "Mrs. Dalloway" (1925), "Rumo ao Farol" (1927) e "Orlando" (1928), muitas das características que marcaram o seu estilo literário e também todo o movimento modernista do século XX, técnicas como o fluxo de consciência e narrativas não lineares com polifonia narrativa e ausência de ação, pelo menos da maneira tradicional. A seleção obedece uma ordem cronológica de apresentação em cada um dos seguintes blocos:

(1) Primeiros contos, antes de 1917 - Nesta primeira parte o destaque vai para o conto "Phyllis e Rosamond" que mostra como a autora, logo em seus textos iniciais, demonstra sua simpatia para com o movimento feminista em contraste com a rigidez de costumes da Era Vitoriana. A seguinte passagem ilustra bem o destino das mulheres nesta época: "Phyllis tem 28 anos, Rosamond, 24. São pessoas graciosas, de faces rosadas, vivazes; um olhar minucioso não encontrará em seus traços uma beleza perfeita; mas seus trajes e maneiras dão-lhes o efeito da beleza, sem lhes dar a substância. Parecem nativas da sala de visitas, como se, nascidas em vestidos de seda para a noite, jamais tivessem posto o pé num solo mais irregular do que o tapete turco, ou reclinado em superfície mais áspera do que a poltrona ou o sofá. Vê-las na sala cheia de mulheres e homens bem trajados é como ver um negociante na Bolsa, ou um advogado no Fórum".

(2) Contos de 1917 a 1921 - "Kew Gardens" é como um quadro impressionista, uma paisagem de uma tarde de Julho no jardim de Kew Gardens , onde praticamente não há nenhuma ação, exceto pela descrição dos efeitos de luz e cor no canteiro de flores e a passagem de homens e mulheres como fragmentos de memórias que são tão importantes na narrativa quanto o movimento de um caracol no jardim que "já havia considerado todas as possíveis maneiras de atingir seu objetivo sem contornar a folha seca nem subir por cima dela".

Ainda nesta fase, uma outra composição que impressiona pela originalidade da narrativa é "Objetos Sólidos" na qual o protagonista, um influente político que concorre ao parlamento, vai se desligando aos poucos de sua brilhante carreira e obrigações em troca de uma surpreendente paixão por objetos sem valor como cacos de vidro e porcelana. A maneira como Virginia Woolf descreve os detalhes de forma e cores de tais objetos, associados ao gradativo processo de alucinação do personagem, tudo isso no espaço limitado de um conto, é verdadeiramente um caso de estudo.

(3) Contos de 1922 a 1925 - Em mais de um conto desta fase, Virginia Woolf utiliza a personagem Clarissa Dalloway que parece ser um elemento central no seu universo de ficção, costumando ligar outros personagens da narrativa como no caso de "Mrs. Dalloway em Bond Street", que inicia, de maneira semelhante ao famoso romance: "Mrs. Dalloway disse que ela mesma ia comprar as luvas". Passagem conhecida do grande público através do filme "As Horas" (2002), de Stephen Daldry, com Nicole Kidman. A partir desta etapa, cada vez mais a introspecção e o fluxo de consciência são utilizados na narrativa, confundindo o leitor menos atento.

(4) Contos de 1926 a 1941 - O conto "Momentos de ser: pinos de telha não têm pontas" mostra a indefinição sexual de Virginia que, apesar de um longo casamento com Leonard Woolf, teve um relacionamento amoroso com Vita Sackville-West e também um caso de paixão literária pela escritora Katherine Mansfield. Segundo consta das notas desta edição: "Em 8 de julho de 1927 ela disse à tambem escritora Vita Sackville-West: ´Acabei de escrever, ou reescrever, um saboroso continho sobre safismo, para os americanos`. Em 14 de Outubro ela se referiu a ´sessenta libras recém-recebidas da América por seu continho safista, cuja clara intenção o editor não viu (...)`".

Terça-feira, Dezembro 30, 2008

Filosofia na Visão de Bertrand Russell

Bertrand Arthur William Russell (1872 - 1970) foi um dos filósofos mais influentes do século XX, tendo se destacado por seus trabalhos no campo da lógica matemática e filosofia analítica. Em 1950, Russell recebeu o Prêmio Nobel de Literatura "em reconhecimento dos seus variados e significativos escritos, nos quais ele lutou por ideais humanitários e pela liberdade do pensamento".

O texto abaixo foi encaminhado pelo meu amigo Quinta que tem colaborado bastante com este “Mundo de K” na área de Filosofia. É uma abordagem de Bertrand Russell pouco divulgada e conhecida sobre a definição e o enquadramento da Filosofia nas áreas do conhecimento humano.

"Filosofia é uma palavra que tem sido empregada de várias maneiras, umas mais simples, outras mais restritas. A Filosofia, conforme entendo a palavra, é algo intermediário entre a Teologia e a Ciência, como Teologia consiste de especulações sobre assuntos a que o conhecimento exato não conseguiu até agora chegar, mas, como a Ciência, apela mais à razão humana do que à autoridade, seja esta a da tradição ou da revelação. Todo conhecimento definido pertence à Ciência; e todo dogma, quanto ao que ultrapassa o conhecimento definido, pertence à Teologia. Mas entre a Teologia e a Ciência existe uma Terra de ninguém: é a Filosofia. Quase todas as questões do máximo interesse para os espíritos especulativos são de tal índole que a Ciência não pode as responder, e as respostas confiantes dos teólogos já não nos parecem tão convincentes como o eram nos séculos passados.

Acha-se o mundo dividido em espírito e matéria? E, supondo-se que assim seja, o que é espírito e o que é matéria? Acham-se os espíritos sujeito à matéria, ou eles são dotados de forças independentes? Possui o universo algum propósito? Está ele evoluindo de alguma maneira rumo a alguma finalidade? Existe realmente alguma Lei da Natureza ou acreditamos nelas devido unicamente ao nosso amor inato pela ordem? É o homem o que ele parece ser ao astrônomo, isto é, um minúsculo conjunto de carbono e água a rastejar, imponentemente, sobre um pequeno planeta sem importância? Ou é ele o que parece ser a Hamlet? Acaso é ele, ao mesmo tempo, ambas às coisas? Existe alguma maneira de viver que seja nobre e outra que seja baixa, ou todas as maneiras de se viver são simplesmente inúteis? Se há um modo de vida nobre, em que consiste ele, e de que maneira praticá-lo? Deve o Bem ser eterno, para merecer o amor que lhe atribuímos, ou vale a pena procurá-lo , mesmo que o universo se mova, inexoravelmente, para a morte? Existe sabedoria, ou o que nos parece tal não passa do último refinamento da loucura? Tais questões não encontram respostas nos laboratórios, e os teólogos tem pretendido dar suas respostas, todas elas demasiado concludentes, mas a sua própria segurança faz com que o espírito moderno as encare com suspeita. O estudo de tais questões, mesmo que não se resolvam esses problemas, constitui o empenho da Filosofia."

Quarta-feira, Dezembro 24, 2008

Playing for Change - Feliz 2009

A música pode mudar o mundo? Na opinião do pessoal que desenvolveu a fundação Playing for Change a resposta é positiva. Eles se definem como "um movimento multimídia criado para inspirar, conectar e trazer a paz para o mundo através da música". Para viabilizar esta integração entre diferentes culturas, produziram um filme que conta com a participação de músicos de rua de continentes diferentes interpretando uma mesma canção com seu próprio estilo.

O resultado do trabalho é uma mensagem contagiante de otimismo que nos faz acreditar que o mundo ainda pode ter jeito. Aproveito o clima do vídeo abaixo para agradecer as visitas durante o ano de 2008 e desejar a todos os amigos um ótimo 2009!

Dica: Ilusão da Semelhança

Domingo, Dezembro 21, 2008

Generación Y - Melhor Blog em 2008

Parece que o título de melhor blog do ano vai mesmo para o Generación Y da cubana Yoani Sánchez que faturou fácil os prêmios BOBS (Best of Blogs) da Alemanha e Ortega y Gasset de jornalismo digital da Espanha, Yoani foi incluída também na lista das 100 pessoas mais influentes do mundo em 2008 da revista Time. No excelente blog do Jorge Pontual podemos conferir a entrevista que Yoani deu ao italiano Roberto Ferranti.

É claro que o componente político foi decisivo para esta escolha e também para toda a divulgação que o Generación Y recebeu na Blogosfera. Verifiquei que a última postagem do blog recebeu nada menos do que 2232 (!) comentários. De qualquer forma é um bom exemplo da liberdade de expressão que, apesar de tudo, ainda existe na Internet. Ver abaixo a parte final do belo discurso de agradecimento que Yoani postou de Havana após receber o prêmio Ortega Y Gasset (ver texto integral aqui).

"Em vez de comprar um motor para cruzar o mar numa balsa até a Flórida, tornei-me um balseira virtual. Escapei, não do meu país, mas do medo, da paranóia e do conformismo. Finalmente cheguei, nesta balsa-blog, a uma terra ao mesmo tempo gratificante e dolorosa, de onde a responsabilidade cívica não me permite voltar. Agora tenho duas vidas, uma real, compartimentalizada e controlada, onde ouço ordens, slogans e conclamações à luta; a outra virtual, imensa e livre, onde começo a me sentir cidadã".

Dica: Izabella Olivato

Sexta-feira, Dezembro 19, 2008

Arquivo Pessoa e Labirinto MultiPessoa

Boa notícia para a literatura em língua portuguesa. Depois do ótimo Portal da Casa Fernando Pessoa que apresenta além das obras dos heterônimos Alberto Caeiro, Álvaro de Campos, Bernardo Soares e Ricardo Reis, poesias do próprio Fernando Pessoa e um banco de dados de poetas consagrados, com excelente tratamento multimídia, podemos encontrar agora na Internet extenso material inédito de Fernando Pessoa com abordagem científica através dos novos Portais Arquivo Pessoa e Labirinto MultiPessoa.

Segundo informações dos próprios sites, o Arquivo Pessoa e o Labirinto MultiPessoa correspondem a uma atualização de um CD intitulado MultiPessoa — Labirinto Multimedia, dirigido por Leonor Areal e co-editado em 1997 pela Texto Editora e a Casa Fernando Pessoa. Os portais dirigem-se a todo o tipo de leitores, do leigo ao investigador, tendo os seguintes objetivos principais:

(1) Divulgar a obra de Fernando Pessoa, tornando-a acessível a qualquer leitor, através de uma espécie de antologia interativa, o Labirinto;

(2) Ser um instrumento didático que facilite e apoie o estudo da obra pessoana na sua multiplicidade;

(3) Servir como instrumento de investigação ao permitir pesquisas de texto complexas na obra de Fernando Pessoa.

Existe a previsão de atualização e complementação durante o ano de 2009 das informações disponíveis nos Portais, incluindo textos de crítica literária sobre Fernando Pessoa, vídeos e jogos literários.

Terça-feira, Dezembro 16, 2008

Writer´s Rooms - The Guardian

Virginia Woolf

A versão online do jornal inglês The Guardian atualiza regularmente uma série sobre os locais de criação de escritores de várias épocas, chamada "The Writer´s Rooms". Este primeiro exemplo é o escritório de Virginia Woolf (1882 - 1941) uma construção de madeira localizada no jardim da casa de Leonard e Virginia onde ela gostava de escrever durante o verão, mesmo não sendo o melhor lugar em termos de concentração devido aos sinos da igreja no fundo do jardim, o barulho das crianças na escola ao lado ou o cão deixando marcas de patas nas páginas de seus manuscritos. No inverno, muitas vezes extremamente frio, ela não podia segurar a caneta e precisava trabalhar dentro de casa.

Em 28 de Março de 1941, em uma manhã fria de primavera, ela escreveu a carta de despedida abaixo para Leonard antes de caminhar até o rio Ouse. Virginia Woolf vestiu um casaco, encheu seus bolsos com pedras e se deixou afogar.

"Querido, Tenho certeza de estar ficando louca novamente. Sinto que não conseguiremos passar por novos tempos difíceis. E não quero revivê-los. Começo a escutar vozes e não consigo me concentrar. Portanto, estou fazendo o que me parece ser o melhor a se fazer. Você me deu muitas possibilidades de ser feliz. Você esteve presente como nenhum outro. Não creio que duas pessoas possam ser felizes convivendo com esta doença terrível. Não posso mais lutar. Sei que estarei tirando um peso de suas costas, pois, sem mim, você poderá trabalhar. E você vai, eu sei. Você vê, não consigo sequer escrever. Nem ler. Enfim, o que quero dizer é que depositei em você toda minha felicidade. Você sempre foi paciente comigo e incrivelmente bom. Eu queria dizer isto - todos sabem. Se alguém pudesse me salvar, este alguém seria você. Tudo se foi para mim mas o que ficará é a certeza da sua bondade. Não posso atrapalhar sua vida. Não mais. Não acredito que duas pessoas poderiam ter sido tão felizes quanto nós fomos.V."

Jane Austen

Outro exemplo que impressiona, pela simplicidade, é a mesa de trabalho de Jane Austen (1775 - 1817), uma pequena peça de mármore onde ela escreveu, entre outros clássicos da língua inglesa, "Orgulho e Preconceito" (1797) e "Razão e Sensibilidade" (1811). Ela teve seis irmãos e uma irmã mais velha, Cassandra. Após a morte de Cassandra, em 1845, a mesa foi doada para um empregado e acabou retornando para o antigo lar, onde permanece até hoje como um símbolo da modéstia de um gênio, como bem destacou o artigo do jornal Guardian.

Eric Hobsbawm

Em contraste com a sobriedade das fotos acima, temos aqui o caótico local de trabalho do grande historiador Eric Hobsbawm, autor de, entre outros livros, "A Era das Revoluções" (período de 1789 a 1848), "A Era do Capital" (período de 1848 a 1875) e "A Era dos Impérios" (período de 1875 a 1914) e "A Era dos Extremos" sobre a história do século XX. Difícil de acreditar que exista algum tipo de organização neste ambiente.

Outros autores que merecem uma visita nesta série do Guardian: Charlotte Bronte, Charles Darwin, Rudyard Kipling, George Bernard Shaw, Anne Enright, Martin Amis, Siri Hustvedt, Jonathan Safran Foer, John Banville, Will Self.

Sábado, Novembro 29, 2008

100 Livros Notáveis em 2008 - New York Times

O ano vai chegando ao final e surgem as famosas listas com os destaques em cada área de atuação. Com a literatura não poderia ser diferente, ressaltando apenas a particularidade de que a lista dos livros mais vendidos é normalmente inversa à lista dos melhores em termos de qualidade. Fato extraordinário, mas que pode ser facilmente constatado nas relações de "best sellers" de pouco conteúdo que conhecemos bem. Logo, é importante identificar o foco da lista em referência.

A lista do New York Times (Sunday Book Review), apresenta uma seleção de 100 livros resenhados no período de 02 de Dezembro, 2007 até hoje, nas categorias de ficção e poesia e não ficção. Cada um dos livros selecionados tem um link apontado para a respectiva resenha crítica, sendo, desta forma, uma fonte de informações importante já que a grande maioria dos livros ainda não foi publicada no Brasil.

Destaquei alguns autores com os links para as resenhas de seus últimos romances, lançados em 2008: DIARY OF A BAD YEAR - J. M. Coet­zee, INDIGNATION - Philip Roth, A MERCY - Toni Morrison, THE WIDOWS OF EASTWICK - John Updike, YESTERDAY’S WEATHER - Anne Enright.

Para quem desejar se aprofundar ou procurar uma resenha para um livro específico, seguem os links para as listas dos últimos dez anos: 2007 / 2006 / 2005 / 2004 / 2003 / 2002 / 2001 / 2000 / 1999 / 1998.

Fonte: Alessandro Martins - Livros e Afins

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