Sexta-feira, Junho 01, 2012

Kurt Vonnegut - Slaughterhouse-Five (Matadouro 5)

Kurt Vonnegut - Slaughterhouse-Five (Matadouro 5) - 224 páginas - Random House Publishing Group - Lançamento original 1969.

Um livro essencial para a literatura contemporânea norte-americana e que influenciou muitos autores, Matadouro 5 é um exemplo do estilo único de Kurt Vonnegut (1922 - 2007) que mistura humor negro, sátira social e ficção científica para criticar o absurdo da guerra e da trajetória humana. Neste caso, o bombardeio de Dresden em 1945, onde mais de 130.000 civis alemães morreram em um ataque dos aliados contra uma cidade sem qualquer objetivo militar. O texto tem como base as experiências do próprio Vonnegut que lutou na Segunda Guerra Mundial e sobreviveu ao bombardeio, como prisioneiro de guerra, escondendo-se nas instalações de um matadouro subterrâneo.

O protagonista, Billy Pilgrim, um americano um tanto o quanto idiotizado, assim como todos os outros personagens, descobre a sua habilidade de viajar pelo tempo durante a guerra e narra várias fases de sua vida no passado e futuro, inclusive a sua estadia no planeta Tralfamadore, onde é levado para ser exposto em uma espécie de zoológico pelos seres alienígenas. Parece incrível que Kurt Vonnegut consiga, neste roteiro fantasioso "trash", criar um romance que, carregado de ironia, não possa ser enquadrado em outra categoria que não seja a mais verdadeira e honesta literatura. Como bem definiu a crítica da revista Life: "um livro engraçado do qual não é permitido rir, um livro triste sem lágrimas.".

Sábado, Maio 26, 2012

blog de escritor - Marcelino Freire

Já há algum tempo Marcelino Freire utiliza o blog como ferramenta de trabalho, seja para informar sobre sua agenda ou simplesmente para publicar textos sempre fortes e originais. O seu primeiro blog na rede, o eraOdito, foi desativado em 2010 e mais recentemente Marcelino Freire criou o excelente Ossos do Ofídio, onde ele encontra espaço para desferir suas chicotadas literárias. Algumas de minhas postagens preferidas: Escritor Não Sente Nada, Sequestrar a Memória, Os Inscritores e por aí vai. Lendo esses textos vocês entenderão o que eu tentei resumir com chicotadas literárias. 

Dados biográficos: "Marcelino Freire nasceu em 1967, em Sertânia, PE. Viveu no Recife e, desde 1991, reside em São Paulo. É autor, entre outros, dos livros “Angu de Sangue” (Ateliê Editorial) e “Contos Negreiros” (Editora Record – Prêmio Jabuti 2006). Em 2004, idealizou e organizou a antologia “Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século” (Ateliê). Alguns de seus contos foram adaptados para teatro. Participou de várias antologias no Brasil e no exterior. Criou a Balada Literária, evento que, desde 2006, reúne escritores, nacionais e internacionais, pelo bairro paulistano da Vila Madalena. É um dos integrantes do coletivo EDITH, pelo qual lançou, em julho de 2011, o livro de contos “Amar É Crime”."

Sábado, Maio 19, 2012

blog de escritor - Michel Laub


Escritores profissionais nem sempre têm tempo ou interesse em manter blogs pessoais na rede. Normalmente, este papel é desempenhado pelas editoras com foco principal na divulgação do acervo de seus autores. Este não é o caso do escritor gaúcho Michel Laub que consegue manter com excelente conteúdo o seu blog pessoal, de visual muito simples, mas sempre com excelentes dicas e links sobre livros, literatura, autores, música, além da própria divulgação da sua agenda (vistar o blog de Michel Laub). As minhas postagens recomendadas são: Cem escritores brasileiros e suas manias quando escrevem, Links (sempre um assunto original) e, é claro, a seção de Livros.

Dados biográficos: "Michel Laub nasceu em Porto Alegre, em 1973. Escritor e jornalista, foi editor-chefe da revista Bravo e coordenador de publicações e internet do Instituto Moreira Salles. Hoje é professor de criação literária e colaborador de diversas editoras e veículos (Companhia das Letras, Cosac Naify, Trip, Revista 18, IMS, Bravo, Contigo, Folha de S.Paulo). Publicou cinco romances, todos pela Companhia das Letras: Música Anterior (2001); Longe da água (2004), lançado também na Argentina; O segundo tempo (2006), O gato diz adeus (2009) e Diário da queda (2011), que sairá na Alemanha, Espanha e Inglaterra e teve os direitos vendidos para o cinema. Recebeu os prêmios Brasília, Bravo/Bradesco e Erico Verissimo (União Brasileira dos Escritores), as bolsas Vitae, Funarte e Petrobras e foi finalista dos prêmios Jabuti, Portugal Telecom (duas vezes) e Zaffari&Bourbon (duas vezes), entre outros. Também tem contos publicados em antologias na Itália, Galiza e Coreia."

Sexta-feira, Maio 18, 2012

Cristovão Tezza - Beatriz

Cristovão Tezza - Beatriz - 144 páginas - Editora Record - lançamento setembro de 2011

Cristovão Tezza nasceu em Lages, Santa Catarina, em 1952, é conhecido do grande público pelo seu romance O filho eterno que ganhou todos os maiores prêmios literários brasileiros em 2008: Jabuti de melhor romance, Portugal Telecom de Literatura e Prêmio São Paulo de Literatura de melhor livro do ano.

Neste seu último livro, Tezza que se define como um "não contista", arrisca neste gênero, mas com uma particularidade: todas as sete narrativas têm um fio condutor em comum, a personagem Beatriz que foi protagonista do romance Um erro emocional de 2010. Outra característica interessante deste lançamento é o prólogo, recurso pouco utilizado atualmente, em que o próprio autor explica as motivações e estrutura do livro, além de discorrer sobre as diferenças entre o conto e romance.

Todos os contos estão relacionados direta ou indiretamente ao trabalho do escritor e ao ambiente literário, seja na função de revisora de texto, professora ou amante de um jovem tatuado que é herdeiro de um sebo de livros, Beatriz está sempre associada às relações entre leitor e autor. A motivação para a criação do livro, ainda segundo o próprio Tezza foi a sua participação em uma mesa-redonda em Curitiba particularmente desagradável e transformada em ficção no primeiro conto de Beatriz:
"Fiz um silêncio retórico e dei um gole de água daquele copo horroroso de plástico com uma certa pose episcopal, para sentir a temperatura da platéia de Curitiba, que eu desgraçadamente desconhecia; a cidade parece que tem uma inexplicável fama de culta. Ao lado, meu parceiro de mesa (o nome me escapa), um simpático romancista municipal e professor universitário que tentava segurar o riso, talvez por imaginar (ele não me conhece), vítima daquele tipo de respeito semiformal ao outro que é a marca da província, que eu falasse a sério, e que uma gargalhada poderia ser ofensiva ao visitante. E então, súbito, eu senti o silêncio gélido da platéia (...)".

Sábado, Maio 12, 2012

Philip Roth - Patrimônio

Philip Roth - Patrimônio - 192 páginas - Editora Companhia das Letras - Tradução de Jorio Dauster - lançamento 2012 (ler aqui um trecho em pdf disponibilizado pela editora).

Philip Roth não tem mesmo pena de seus protagonistas, assim como nos romances mais recentes: Fantasma Sai de Cena e O Animal Agonizante, o tom também é autobiográfico neste Patrimônio, lançado originalmente em 1991, ao ponto de merecer o subtítulo: uma história real. Roth mergulha na sua tragédia particular ao narrar os últimos dias de relacionamento com o pai de 86 anos, vítima de um tumor cerebral. Apesar de tudo a escrita é precisa como sempre, mesmo ao tratar de um tema tão doloroso e pessoal, o autor consegue transformar em literatura a difícil luta de pai e filho contra a decadência gradual que vai tomando conta do corpo de Herman Roth. O olhar pragmático de Philip Roth não deixa espaço para qualquer esperança, seja de caráter científico ou religioso. Nesta sombria passagem do romance percebemos a dolorosa carga de realidade contida no texto e que Roth quase chega a transformar em ficção:
"Estar sozinho também me possibilitava expressar toda a emoção que eu sentia sem necessidade de assumir uma postura máscula, madura e filosófica. A sós, eu chorava quando me dava vontade de chorar, e nunca essa vontade foi tão grande como quando tirei do envelope a série de imagens do cérebro dele não porque eu fosse capaz de identificar com facilidade o tumor que lhe invadia o cérebro, mas simplesmente porque se tratava do cérebro dele, do cérebro do meu pai, daquilo que o fazia pensar da forma curta e grossa com que pensava, falar da forma enfática com que falava, raciocinar da forma emotiva com que raciocinava, decidir da forma impulsiva com que decidia. Aquele era o tecido que produzira seu conjunto de infindáveis preocupações e por mais de oito décadas sustentara sua teimosa autodisciplina, a fonte de tudo que me havia frustrado tanto como filho adolescente, a coisa que comandara nossos destinos nos tempos em que ele era todo-poderoso e ditava os propósitos da família — tudo isso agora estava sendo comprimido, deslocado e destruído por uma 'grande massa localizada predominantemente na região dos angulos cerebelopontinos e das cisternas prepontinas.'"
Para aqueles que já passaram por experiência semelhante ao acompanhar os momentos finais de um pai ou mãe, é impossível não se identificar com o sentimento de medo e angústia que passa a fazer parte do nosso cotidiano, a triste sensação de querer que tudo acabe logo, mesmo sabendo que não há outro final possível que não aquele que mais tememos. Enfim, somente Roth conseguiria sintetizar, em tão poucas e simples palavras, o abandono e a solidão de quem fica:
"O que os cemitérios provam, ao menos para gente como eu, não é que os mortos estão presentes, mas que se foram de vez. Eles se foram, enquanto nós, por enquanto, não fomos. Isso é fundamental e, embora inaceitável, bem fácil de compreender."

Segunda-feira, Abril 23, 2012

Revista literária digital Lucerna


A Fundação José Saramago lançou hoje, em comemoração ao Dia Mundial do Livro, a revista literária digital Lucerna que já está disponível para download no site da Fundação. O objetivo da publicação está lindamente definido na seguinte apresentação da revista: 
"Lucerna, dizem os dicionários, é 'uma janela alta que serve para ventilar e dar luz a um quarto'. É também sinônimo de clarabóia, palavra escolhida por José Saramago no começo da sua vida literária para intitular um romance e para, talvez, concretizar uma declaração de intenções daquilo que queria que fosse o seu trabalho de escritor: olhar através de uma janela discreta o que se passa no mundo ou nas almas, observar com atenção ativa e respeitosa, contar o que tinha visto, refletir sobre os movimentos que são o viver. É o que se pretende modestamente com Lucerna."
A revista estará disponível também, à partir de hoje, para download gratuito na loja online da Apple, em formato compatível com iPads.

Sexta-feira, Abril 20, 2012

Imagens do Festival de Coachella 2012

Radiohead - Festival de Coachella 2012
Imagens do Coachella Valley Music and Arts Festival, edição 2012, na cidade de Índio, deserto da California. A principal atração foi mesmo o Radiohead que se limitou a tocar as músicas do último “The King of Limbs” e outros sucessos de “In Rainbow". Este ano foi o mais concorrido da história do Coachella com público superior a 225.000 pessoas e line-up de 140 artistas e bandas. Ver aqui uma seleção de fotos do primeiro final de semana desta versão 2012 e aqui fotos das versões anteriores do festival no site oficial.

Festival de Coachella 2012

Sábado, Abril 14, 2012

e. e. cummings - análise do poema "1(a"

pintura a óleo - auto-retrato - 1950
Somente Augusto de Campos poderia traduzir e comentar o mais experimental e moderno poeta de todos os tempos, o americano e. e. cummigs (1894 - 1962), por sinal um precursor do uso das letras minúsculas em seu nome, assim como o atualíssimo valter hugo mãe. Utilizo como referência para esta postagem a edição bilíngue de 1986 da editora brasiliense que reúne 40 poemas traduzidos e a análise abaixo também é de Augusto de Campos.

Na poesia de Cummings o aspecto visual e a composição tipográfica do poema são parte fundamental do trabalho, seja pela posição e deslocamento das palavras, sinais de pontuação, espaços em branco ou através do número de letras e linhas que influenciam diretamente no ritmo do poema. Todas essas características fazem da poesia de Cummings um desafio praticamente intransponível para qualquer tradutor.

O poema "1(a" ou "a leaf falls on loneliness", como também é conhecido, pode ser uma ótima introdução para a linguagem cummingsiana. Este trabalho, publicado quando Cummings tinha 64 anos no livro "95 poems", é composto por apenas uma palavra e uma frase: loneliness (solidão) e a leaf falls (uma folha cai). A palavra e a frase se opõem uma a outra como o conceito subjetivo (loneliness) e a imagem objetiva (a leaf falls), têm o mesmo número de letras.

A composição é organizada em grupos de linhas, com a alternância de 1 e 3 linhas. O tipo dos caracteres "1" e "f" (principalmente no tipo com serifa , times new roman) representam uma ambivalência que é parte fundamental do contraste com "alone" (só), "one" (um) e "oneliness" (unicidade). Finalmente, como destaca Augusto de Campos: "através do recorte das linhas, o poeta representa o movimento da folha caindo — o '1' que vem da primeira linha, passando pelos 'ff' subsequentes —, rodopiando na inversão das letras 'af' (final de 'leaf') e 'fa' (início de 'fall') até desaparecer na última linha".

Bem, sem maiores introduções ou "intraduções" como brincou Augusto de Campos, vamos ao poema "1(a" ou "a leaf falls on loneliness":
l(a

le
af
fa

ll

s)
one
l

iness
Referência: Editora Brasiliense, 1986, 146 páginas - 40 poem(a)s de e. e. cummings

Terça-feira, Abril 10, 2012

Rodolfo Walsh - Essa mulher e outros contos

Rodolfo Walsh - Essa mulher e outros contos - Editora 34 - 253 páginas - Tradução de Sérgio Molina e Rubia Prates Goldoni.

A lembrança do escritor argentino Rodolfo Walsh (1927 - 1977) ficará para sempre associada à forma brutal com que foi assassinado aos cinquenta anos por um comando militar nas ruas de Buenos Aires. Ele foi criador de um estilo que viria a ser conhecido como obra jornalística ou de testemunho, em que sempre deixou claro o seu engajamento político, apesar do preço que pagaria no futuro. Estreou na literatura no início da década de 1950 escrevendo contos policiais e deixou dois exemplos de romance-reportagem com os livros:  "Operação massacre" (1955) e "Caso Stanowski" (1958).

Esta edição reúne onze contos escritos entre 1964 e 1967, chamados de "contos literários" pela crítica, apenas como uma forma de diferenciá-los da sua produção anterior. Os contos foram publicados originalmente em: "Los oficios terrestres" (1965), "Un kilo de oro" (1967) e "Un oscuro dia de justicia" (1973). Foi acrescentada também a este volume uma entrevista que Walsh concedeu a outro grande escritor argentino, Ricardo Piglia, em 1970.

Nos textos de Rodolfo Walsh fica sempre evidente a carga biográfica e os elementos históricos da Argentina, mas isto é muito pouco para definir a sensibilidade literária de Walsh que era um verdadeiro estilista, independente da técnica narrativa ou influências literárias que poderiam oscilar de James Joyce a Charles Dickens. Os seus livros acabam extrapolando o contexto político local e se transformando em referências universais, como toda boa literatura deve ser.

O conto "Essa mulher" tem como inspiração o desaparecimento do corpo de Eva Perón da sede da CGT e teria sido escrito com base em uma suposta entrevista do próprio Rodolfo Walsh com Carlos Eugenio de Moori Koenig, ex-chefe do Serviço de Informações do Exército (SIE) e responsável pela operação de sequestro do corpo de Evita. Mas, na minha opinião, os melhores contos são os que compõem a trilogia dos irlandeses, chamados: "Irlandeses atrás de um gato", "Os ofícios terrestres" e "Um sombrio dia de justiça", todos de cunho biográfico e ambientados em um internato para orfãos, textos que poderiam ser incluídos em qualquer antologia de melhores contos do século XX.

Sábado, Março 31, 2012

Tom Wolfe - A Fogueira das Vaidades

Tom Wolfe - A Fogueira das Vaidades - edição brasileira da Rocco de 1989 - 915 páginas - tradução de Lia Alverga Wyler (lançamento original 1987 - The Bonfire of Vanities).

Um verdadeiro clássico dos anos oitenta, este romance de Tom Wolfe ainda permanece extremamente atual, assim como todos os conflitos sociais, raciais e incoerências econômicas da cidade de Nova York. O saudoso Paulo Francis escreve a introdução da edição brasileira da Rocco e resume muito bem o valor literário de Wolfe quando afirma que "o romance moderno, pós-Flaubert, tomou outro rumo. É introspectivo ou se concentra na invenção verbal. É "fantástico" porque, influenciado por Nietzsche e, principalmente, Freud, se desinteressou pelo aparente concreto e factual (...) Wolfe mandou às favas esse modernismo, que, de resto, já tem barbas, de tão velho. Quer escrever como Balzac, recriar o mundo e não dar uma visão teórica da que os críticos principais decidiram que interesse aos intelectuais".

Esta é a trajetória de Sherman McCoy, operador da bolsa de valores e símbolo da riqueza de Wall Street, autointitulado "O senhor do universo", um homem com rendimentos superiores a um milhão de dólares anuais e residente na Park Avenue, aparentemente alheio a qualquer problema dos comuns mortais da cidade. Muito bem, a sorte está prestes a mudar para Sherman MacCoy quando ele vai receber sua amante, Maria Ruskin, no aeroporto internacional de Nova York e se perde em uma saída errada que os leva diretamente ao Bronx. O casal se envolve em uma aparente tentativa de assalto por dois jovens negros e acabam atropelando, acidentalmente, um deles na sua fuga. O caso vem a público e se transforma em um movimento que pretende levar a opinião pública a  uma verdadeira cruzada contra a opressão das classes desfavorecidas e o desequilíbrio econômico em Nova York.

Tom Wolfe cria alguns personagens inesquecíveis neste romance, como o próprio Sherman McCoy que é simplesmente triturado pelo sistema representado por um promotor público, Lawrence Kramer, que tem a chance de acelerar a sua carreira, o reverendo negro Reginald Bacon manipulador da opinião pública e que fatura alto com as causas sociais do Bronx, além do decadente jornalista inglês Peter Fallow. O texto de Tom Wolfe é inteligente e envolvente, uma crônica de uma das maiores cidades do mundo e um romance que se lê com muito prazer e velocidade, apesar de suas quase mil páginas.

Quarta-feira, Março 28, 2012

Objeto de Desejo

Virginia Woolf Hardback Classics
Para aqueles que ainda pensam na editora britânica Penguin Books associada apenas ao formato de ediçoes de bolso populares, conforme a sua estratégia de fundação em 1935, recomendo uma visita ao site Penguin Hardback Classics para conhecer algumas séries de acabamento refinado, como a de F.Scott Fitzgerald e Vladimir Nabokov. No ano passado, em lembrança aos 70 anos da morte de Virginia Woolf, a Pengin Books contratou a empresa Pentagram de Londres e o designer Angus Hyland para o projeto gráfico de cinco livros fundamentais da carreira de Virginia Woolf e da literatura moderna.

Sábado, Março 24, 2012

Alyssa Monks


Simplesmente lindas as pinturas hiper-realistas da americana Alyssa Monks. A fixação pela água em imagens distorcidas de corpos femininos e sempre com muita  sensualidade é um convite à imaginação. Ver detalhes sobre a biografia no site da artista ou na sua página no facebook. Uma excelente seleção de imagens também disponível na galeria Sarah Bain.

Domingo, Março 18, 2012

Granta Vol. 8 - Trabalho

Revista Granta Vol. 8 - Editora Objetiva, Selo Alfaguara, 2011 (leia aqui um trecho disponibilizado pela editora).

Esta edição da Granta em português reúne 16 textos de autores estrangeiros e brasileiros, escritores já consagrados como Salman Rushdie, Doris Lessing e Julian Barnes, mas também jovens ainda não conhecidos do grande público, como a chinesa Yiyun Li e a italiana Michela Murgia. 

Como já se tornou padrão na Granta em português, foi incluído um ensaio fotográfico sobre o tema desta edição do premiado diretor de cinema e fotografia Walter Carvalho (diretor de fotografia de Lavoura arcaica, Central do Brasil, Abril despedaçado, entre outros).

Outro brasileiro já consagrado, Bernardo Carvalho comparece nesta edição com o primeiro capítulo de seu novo romance, que será lançado em 2012 pela editora Companhia das Letras, onde narra o trabalho de um censor e tradutor de cartas, cujo conhecimento da língua alemã ajuda a interceptar muitas correspondências de judeus tentando escapar da Europa durante a Segunda Guerra Mundial.

Destaco o conto do irlandês Colun McCann (vencedor do National Book Award de 2009 e colaborador da New Yorker e Paris Review), uma história pessoal em que ele lembra de um dia de sua infância em que conheceu o local de trabalho do pai, a redação de um jornal em Dublin. 

Excelente também o conto do escritor bósnio Aleksandar Hemon em que ele descreve como ficou retido em Chicago, durante o inverno de 1992, no dia em que o cerco a Sarajevo começou.  A sua paixão pelo futebol é o elo de ligação com outros imigrantes nos Estados Unidos, vindos do México, Nigéria, Ucrânia, Jordânia, Romênia, Alemanha e, é claro, Brasil.

Enfim, diferentes abordagens para a mesma tentativa de entender o significado do trabalho, ou a falta dele. Seja refletindo sobre a preguiça, como Salman Rushdie e Yiyun Li ou, por outro lado, sobre a nobreza do trabalho, como Julian Barnes faz com sua descrição das atividades de um músico e filósofo na Viena do século XVIII, tentando curar uma jovem pianista de sua cegueira de infância, temos uma ótima oportunidade de conhecer textos criativos de grandes autores da literatura contemporânea.

Sábado, Março 10, 2012

Infância, um poema de João Cabral de Melo Neto


João Cabral com o irmão mais velho, Virgínio (à esquerda), em 1924

O poema Infância foi publicado em 1942, incluído no primeiro livro de poesias de João Cabral de Melo Neto (1920 - 1999), "Pedra do Sono", em edição custeada pelo próprio autor e tiragem de 340 exemplares. Segundo introdução de Marly de Oliveira à Obra Completa de joão Cabral de Melo Neto da editora Nova Aguilar, "Pedra do Sono" não surgiu como uma obra revolucionária, apesar de considerado um dos precursores do Concretismo. Ainda segundo Marly: "este era um momento importante da literatura brasileira, no qual, depois do Movimento de 22, um Manuel Bandeira, um Carlos Drummond de Andrade, uma Cecília Meireles, um Murilo Mendes, um Jorge de Lima, atuavam na plenitude de seus recursos técnicos (e poéticos). Não havia, como na geração de 22, uma necessidade de insurgir-se contra a geração parnasiana anterior: o problema estava na diferenciação (...)".
Infância

sobre o lado ímpar da memória
o anjo da guarda esqueceu
perguntas que não se respondem.

Seriam hélices
aviões locomotivas
timidamente precocidade
balões-cativos si-bemol?

Mas meus dez anos indiferentes
rodaram mais uma vez
nos mesmos intermináveis carrosséis.

Sexta-feira, Março 09, 2012

Finalistas da Smithsonian Magazine


The Flower Girl - Joseph Richard - Altomonte Springs, Florida

Foram escolhidas as 50 fotos finalistas da nona edição da Smithsonian magazine. Esta competição reuniu mais de 14.000 fotógrafos de 100 países. As fotos foram selecionadas com base na qualidade técnica, clareza e composição. A votação está aberta on-line para o público no site da Smithsonian, mais uma dica do excelente site fotográfico Big Picture. Os finalistas são todos ótimos, mas a minha foto preferida é a do cachorro descansando!


Ranch Dog Taking a Break From Work - Jamie Illian - Dallas, Texas

Domingo, Março 04, 2012

Saul Bellow - Henderson, o Rei da Chuva

Saul Bellow - Henderson, o Rei da Chuva - 456 páginas - Editora Companhia das Letras - Tradução de José Geraldo Couto - Coleção Prêmio Nobel - Lançamento 2011 (leia aqui um trecho em pdf disponibilizado pela editora).

A Companhia das Letras lançou no ano passado, em comemoração aos 25 anos da editora, uma coleção composta por doze autores do seu catálogo que receberam o Prêmio Nobel de literatura. Cada volume com acabamento de capa dura e revestimento de tecido além de tiragem única de 3 mil exemplares, sem reimpressões. Projeto gráfico de Raul Loureiro e Claudia Warrak.

Lançado originalmente em 1959, Henderson, o Rei da Chuva é o quinto romance de Saul Bellow (1915 - 2005), um dos mais importantes escritores norte-americanos do século XX e que recebeu o prêmio Nobel em 1976. O protagonista deste romance, Eugene Henderson, é um personagem raro e rico em contrastes, uma personalidade ao mesmo tempo truculenta e sensível, ex-combatente condecorado da Segunda Guerra, sobrevivente de dois casamentos e vários filhos, herdeiro de uma grande fortuna, mas que não se importa de fazer todo o trabalho pesado de sua fazenda de criação de porcos. Henderson decide partir para a África em plena crise existencial de meia-idade em busca de um novo sentido para sua vida.

A narrativa em primeira pessoa de Bellow é um caso à parte, um texto direto e sempre bem-humorado, é impossível não simpatizar com Eugene Henderson no decorrer de suas aventuras, nem sempre politicamente corretas (principalmente considerando o ano de 1959) com os Arnewi e Wariri, dois povos de culturas opostas, lutando pela sobrevivência no ambiente hostil e sem água de localidades remotas do interior da África.

Outros títulos da Coleção Prêmio Nobel:

40 Novelas - Luigi Pirandello
Amada - Toni Morrison
Amor de Novo - Doris Lessing
O Ano da Morte de Ricardo Reis - José Saramago
Uma Curva No Rio - V. S. Naipaul
Desonra - J. M. Coetzee
Jovens de um Novo Tempo Despertai! - Kenzaburo Oe
A Morte de Matusalém - E Outros Contos - Isaac Bashevis Singer
Neve - Orhan Pamuk
Noites das Mil e Uma Noites - Naguib Mahfouz
Ossos de Sépia - Eugenio Montale

Domingo, Fevereiro 26, 2012

Rafael Sperling - Festa na Usina Nuclear

Rafael Sperling - Festa na Usina Nuclear - 102 páginas - Editora Oito e Meio, lançamento 2011.

Segundo uma citação atribuída a Jorge Luís Borges, "Só se devem ler livros escritos há mais de cem anos", um exemplo de paradoxo que devemos apreciar com o devido cuidado já que, seguindo este pensamento à risca, não teríamos conhecido ainda o próprio Borges, uma perda e tanto para a literatura e também outros autores não teriam sido influenciados pelo grande mestre argentino, entre estes autores certamente estaria incluído o estreante Rafael Sperling com o seu livro de contos "Festa na Usina Nuclear", lançado em 2011 com o reconhecimento de outros escritores contemporâneos brasileiros como André Sant'Anna que escreveu a orelha do livro e elogios de Paulo Scott, João Gilberto Noll, Ana paula Maia e Marcelino Freire.

As influências de Sperling parecem estar menos focadas nos textos fantásticos de Borges e Cortázar e mais no surrealismo de André Breton e Boris Vian, porém com fortes doses de ironia e bom humor. O texto nonsense, diria quase corajoso, de Rafael Sperling agrada logo de início e parece que veio para ficar. Leiam o exemplo abaixo e tirem suas conclusões.

Um homem chamado Homem 2
(um conto de Rafael Sperling)

Havia um Homem
Um homem chamado Homem

*

Homem estava na Casa. Ele realizava o Sentar Em Frente À Televisão, Com A Lata De Cerveja. Era Segunda-Feira, 14h30.

O Aparelho de Telefone toca:

— Alô, Homem?
— Sim, aqui é Homem.
— Gostaria de falar com você.
— Desculpe, aqui não há ninguém chamado Você.
— Não, Homem! Não se faça de O Bobo. Gostaria de realizar a Conversa. É um Assunto Sério.
— Sim, Patrão. Realize a Fala.
— Homem, o que realizas a esta hora?
— Realizo o Sentar Em Frente À Televisão, Com A Lata De Cerveja.
— Mas o Relógio marca 14h30. Seu corpo deveria estar dentro do Trabalho.
— Sim, eu tenho O Conhecimento Disso.
— Então por que se encontra na Casa?
— Eu realizo a Preguiça.
— Bom, Homem, a Humanidade toda realiza a Preguiça, de quando em vez. Mesmo assim, todos realizam diariamente o Trabalho.
— Eu tenho O Conhecimento Disso.
— Se não parar de realizar a Preguiça e começar a realizar o Trabalho, irei aplicar-lhe a Demissão.
— Mas, Patrão! E quanto a Menino? E a Mulher? E até Cachorro. Todos eles aplicam a Relação de Dependência a mim. O Trabalho nos provê o Sustento. Peço que não me aplique a Demissão.
— Para isso, deves tomar a Atitude. Realizas o Sentar Em Frente À Televisão, Com A Lata De Cerveja há dias.
— Patrão... Devo realizar a Confissão.
— Pois, realize-a.
— Sinto o Vazio. Aquele. Sim, o Grande Vazio. A Inibição.
— Mas como? Por que não realizaste a Confissão antes?
— Sinto a Vergonha. Não queria que a Sociedade tomasse o Conhecimento disso.
— Devo encaminhá-lo ao Especialista. E rápido. O Grande Vazio realiza a Contaminação de outros.

A Ambulância realizou o Transporte de Homem até o Hospital. O funcionário Especialista Médico o atendeu.

— O que tens realizado, Homem? Patrão me disse que, há dias, apenas realizas o Sentar Em Frente À Televisão, Com A Lata De Cerveja. Estenda o Braço. Irei aplicar-lhe a Injeção, para preencher o Grande Vazio que sentes em teu corpo. Talvez sintas o Mal-Estar. A Injeção é muito forte.
— Médico, espere. Devo contar-lhe a Verdade. Na verdade... tenho realizado o Nada. O Sentar Em Frente À Televisão, Com A Lata De Cerveja é apenas uma Camuflagem da minha Não Atividade. Não queria que a Família soubesse disso. Sinto-me inundado pela Vergonha.
— Mas, Homem, não tens o Conhecimento de que a realização do Nada é um crime previsto no Código Penal?
— Sim, eu tenho O Conhecimento Disso.
— Então comece imediatamente a realizar algo! Agora! Sou uma Pessoa de Princípios. Se não começares imediatamente a realizar algo irei realizar a tua Denúncia.
— Não. Por que deveria? Por que a Sociedade me impõe? Isso não é ser livre. Isso é estar na Prisão. Tenho o Direito de Nascença de realizar o Nada. Não importa o que vão pensar de mim.
— E quanto à Família?
— Sim, eles são minha única preocupação. Mesmo assim, gostaria de ensiná-los que a Não Atividade é um Direito. A Sociedade nos ensina que a realização do Nada é algo errado, criminoso. Mas esse crime se encontra apenas na cabeça dos homens. Ele não é Real. O Governo não pode controlar minha mente. Creio não precisar provar minha falta de Não Atividade.
— Meu Deus. Homem, tens certeza do que dizes? Sabes qual é a Pena por Não Atividade?
— Sim, a Morte.
— Ainda assim, continuas a realizar o Nada?
— Sim, realizo o Nada quando sinto a Vontade.
— Esta sala possui as Câmeras.
— Não me importo. Nada me importa. Procuro obstinadamente o Nada. VIVA A ESTATICIDADE.

Neste momento a sala é invadida pela Força AntiNão Atividade. Homem é amarrado e levado dali. Em seu julgamento, o Juiz Do Tribunal Das Atividades Humanas concede a Homem o direito de provar perante a Sociedade que é um Cidadão Ativo.

— Não. Pretendo continuar a realizar a minha Não Atividade. É um direto meu. De todos.
— Tens o conhecimento de que o Cidadão que realiza a Não Atividade é aplicado com a Morte?
— Tenho.
— Infelizmente, devo condená-lo à Aplicação De Morte Induzida.

Homem é levado para a Câmara da Libertação, nome dado à sala da Aplicação De Morte Induzida. Homem é amarrado a uma cama, seus membros imobilizados.

— Quais são suas últimas palavras? — pergunta o Aplicador.
            — Como podem me condenar à Morte Por Não Atividade, se a Morte é a Não Atividade elevada às suas últimas consequências?

Sexta-feira, Fevereiro 10, 2012

Revista Granta Vol. 7

Revista Granta Vol. 7 - 372 páginas - Editora Objetiva, Selo Alfaguara, 2011 - traduzido da edição 113 inglesa com o título: The Best of Young Spanish-Language Novelists.

Esta sétima edição da Granta brasileira apresenta 22 jovens escritores da Espanha e de sete países latino-americanos que tinham até 35 anos em 2010, época em que a revista foi lançada em língua inglesa e espanhola. Foi a primeira vez que a Granta lançou uma coletânea de escritores de uma língua que não o inglês. Entre os autores selecionados constam os argentinos Andrés Neuman, a badalada Pola Oloixarac e Samanta Schweblin, o peruano Santiago Roncagliolo e os espanhóis Elvira Navarro e Javier Montes. A tradição da literatura em língua espanhola, com autores do nível de Borges, Cortázar, Onetti, Fuentes, Vargas Llosa e Bolaño, para citar somente alguns, pode se tornar um peso difícil de suportar para novos escritores, mas podemos dizer que todos os textos desta coletânea buscaram seus próprios caminhos, com muita criatividade.

O conto abaixo é do argentino Patricio Pron, nascido em Rosário, na Argentina, em 1975. Segundo sua biografia resumida, aos 28 anos aprendeu a andar de bicicleta na neve da Alemanha, país da maioria dos autores que leu na infância. É autor dos volumes de contos Hombres infames (1999), El vuelo magnífico de la noche (2001) e El mundo sin las personas que lo afean y lo arruinan (2010) e dos romances Formas de morir (1998), Nadadores muertos (2001), Una puta mierda (2007) e El comienzo de la primavera (2008). Pron é doutor summa cum laude em filosofia românica pela Universidade de Georg-August de Göttingen (Alemanha). Atualmente vive em Madri, onde trabalha como tradutor e crítico.

Algumas palavras sobre o ciclo das rãs
(Trechos do conto de Patricio Pron - Argentina) 

"(...) Naturalmente eu não sabia que seria vizinho do escritor argentino vivo antes de me tornar seu vizinho; simplesmente eu estava buscando um apartamento e um amigo que costumava passar longas temporadas fora da capital havia se disposto a emprestar-me o dele, que ficava num bairro de uma cidade em que eu ia morar durante muito tempo. Farto da cidade provinciana onde nascera, eu decidi ir para a capital; ali, acreditava, poderia estar perto das coisas que me interessavam e longe das coisas que não me interessavam, ou simplesmente em outro lugar, com outros rostos e ruas de nomes diferentes ou distribuídas de outro modo, e onde talvez poderia existir uma pessoa com o meu nome que pensasse de outro modo e fizesse as coisas de outra forma, talvez mais satisfatória.

Naturalmente, tampouco nisso eu era original, pois a vida literária deste país se compunha sobretudo de jovens provincianos que aspiravam se tornar escritores e percorriam todo o caminho desde as tristes províncias até a capital e ali viviam mal e nunca mandavam cartas para a família e às vezes voltavam para a província e às vezes ficavam e se convertiam em escritores da capital de pleno direito, ou seja, em escritores que só escreviam sobre a capital e seus problemas, que eles pretendiam fazer passar pelos problemas de uma cidade pobre do sul da Europa e não pelos de uma capital latino-americana, que é o que realmente era aquela cidade. Um desses problemas embora um dos menos importantes, evidentemente eram os próprios escritores de províncias, que costumavam visitar as oficinas literárias de outros escritores de províncias chegados há mais tempo à capital e já não eram escritores de províncias ou fingiam não ser, ou escreviam em pensões imundas ou nas casas que compartilhavam com amigos, provenientes geralmente das mesmas províncias, e depois trabalhavam em lojas ou tabacarias, ou se tinham sorte em livrarias, quase sempre em horários ridículos que os impediam de poder se dedicar seriamente a escrever, com o que, cedo ou tarde, os escritores de províncias acabavam por odiar a literatura, que praticavam de língua para fora, escrevendo em ônibus repletos ou no metrô, porque esta lhes roubava algumas horas de sonho imprescindíveis para aguentar o chefe e os clientes e o clima e os longos deslocamentos em ônibus ou metrô, e porque esta sempre parecia estar um passo além do lugar aonde eles tinham chegado; sempre dava a impressão de que os escritores de províncias  iam alcançar a literatura no seu próximo conto ou no poema seguinte, de que estavam às portas de uma descoberta que, no entanto, os escritores de províncias não estavam em condição de realizar porque, lamentavelmente, para escrever é preciso ter dormido pelo menos seis horas e ter o estômago cheio e, se possível, não trabalhar numa tabacaria. E mais: é possível escrever depois de uma noite maldormida e com uma fome atroz, mas nunca trabalhando numa tabacaria; é triste, mas é assim. (...)"

Terça-feira, Fevereiro 07, 2012

Revista Literária Macondo Nº 4

 

A revista literária eletrônica Macondo chega à sua quarta edição e está cada vez melhor, basta clicar na imagem acima para conhecer os autores divulgados neste número. A Macondo é um desses projetos difíceis de se encontrar em nossos dias, sem fins lucrativos e tendo como objetivo principal a difusão da literatura e dos poemas e contos enviados por colaboradores, é disponibilizada trimestralmente em vários tipos de plataforma. Informações sobre como se tornar um colaborador da revista e divulgar os seus próprios textos podem ser obtidas no site da revista ou através do e-mail: revista.macondo@yahoo.com.br.

Domingo, Fevereiro 05, 2012

Modigliani no RIo de Janeiro


A exposição Modigliani: imagens de uma vida, inaugurada no dia 31 de janeiro, permanecerá no Museu Nacional de Belas Artes (MNBA/Ibram) do Rio de Janeiro até o dia 15 de abril de 2012. A exposição, realizada pelo Museu a Céu Aberto em parceria com o Modigliani Institut Archives Lègalès Paris-Roma, apresenta pinturas e esculturas originais, desenhos, além de documentos, fotos, diários e manuscritos de Modigliani e de importantes artistas da sua época. A iniciativa faz parte do Momento Itália-Brasil que inclui outros eventos culturais em 2012 (visitar o site aqui).

Local: Museu Nacional de Belas Artes (MNBA) - Avenida Rio Branco 199, Centro (Metrô Cinelândia). Rio de Janeiro – RJ.

Horário: Terça a sexta-feira das 10h às 18h e sábados, domingos e feriados das 12h às 17h

Ingressos: R$ 8,00 (meia R$ 4,00). Gratuidade diariamente para professores  e aos domingos para o público em geral. Venda de ingressos e entrada de visitantes até 30 minutos antes do fechamento do Museu.

Sábado, Fevereiro 04, 2012

William Blake - O Livro de Urizen


A imagem acima da Biblioteca Digital Mundial é de uma edição do Livro de Urizen de William blake (1757 - 1827) da Coleção Rosenwald cedida pela Biblioteca do Congresso. Blake é um tipo raro de artista que, tanto em suas poesias quanto ilustrações, inventou a sua própria realidade e religião, moralidade e idealismo. O Livro de Urizen foi escrito provavelmente em 1790 e publicado em 1794, um período histórico, portanto, muito rico para a humanidade após as revoluções francesa e americana. Este livro, dotado de um fabuloso misticismo,  representa a visão de Blake para a Gênese dos espíritos elementares, filhos de Urizen: o ar (Thiriel), a água (Utha), a terra (Grodna) e o fogo (Fuzon).

Os textos de William Blake eram sempre acompanhados de ilustrações do próprio autor que imprimia seus livros através de um processo de prensagem desenvolvido por ele e denominado "Impressão Iluminada" para colecionadores privados ou para livreiros de Londres. Existem apenas seis raras reproduções do Livro de Urizen que, embora possuindo o mesmo texto, diferem quanto à coloração e ilustrações. O trecho abaixo é uma parte da edição bilíngue portuguesa da assírio e alvim, tradução de João Almeida Flor que eu respeitei integralmente, apesar do novo acordo ortográfico (disponível na internet aqui).

The Book of Urizen (trecho do cap. V)
William Blake

The globe of life blood trembled
Branching out into roots,
Fibrous, writhing upon the winds,
Fibres of blood, milk and tears,
In pangs, eternity on eternity.
At length in tears & cries imbodied,
A female form, trembling and pale,
Waves before his deathy face.

All Eternity shudder'd at sight
Of the first female now separate,
Pale as a cloud of snow
Waving before the face of Los.

Wonder, awe, fear astonishment
Petrify the eternal myriads
At the first female form now separate.
They call'd her Pity, and fled.

"Spread a Tent with strong curtains around them.
"Let cords & stakes bind in the Void,
"That Eternals may no more behold them."

They began to weave curtains of darkness,
The erected large pillars round the Void,
With golden hooks fasten'd in the pillars;
With infinite labour the Eternals
A woof wove, and called it Science.

O Livro de Urizen (trecho do cap. V)
Tradução de João Almeida Flor

O globo de sangue vivo estremecia,
Ia espalhando raízes fibrosas
Que se torciam no vento,
Fibras de sangue, leite e pranto,
Em dores eternas, por séculos infindos.
Por fim, encarnada em pranto e lamento
Pairou-lhe diante do rosto de morte
Uma forma feminina e lívida a tremer.

Tremeu a Eternidade inteira, ao ver 
A primeira fêmea diferençada,
Lívida, a lembrar nuvem de neve,
Pairando defronte do rosto de Los.

Fascínio, terror, temor, surpresa,
E as miríades da Eternidade tornam-se pedra
Ao ver a primeira fêmea diferençada.
Deram-lhe Piedade por nome, e debandaram.

"Erguei uma Tenda em volta, de cortinados densos,
Prendei o vácuo entre corda e pilares,
Para os Eternos não os verem mais."

Teceram, pois, cortinas de negrume,
Ergueram altos pilares a cercar o Vácuo,
Onde se prendiam ganchos de ouro;
E os Eternos, com trabalho porfiado,
Teceram véus, chamando-lhes Ciência.

Quinta-feira, Janeiro 26, 2012

Flavio Quintale - Os Peppini

Flavio Quintale - Os Peppini - 332 páginas - Editora Vieira da Silva (Lisboa, Portugal) - Lançamento 2012 (visitar o site do livro aqui).

Segundo Leon Tolstói nos ensinou na famosa introdução de Anna Karenina: "Todas as famílias felizes são parecidas entre si. As infelizes cada uma a sua maneira". Esta ficção de estreia de Flavio Quintale parece comprovar a afirmação de Tolstói ao narrar a trajetória de quatro gerações da família Peppini no Brasil, tendo como pano de fundo a nossa própria história durante o século XX. 

Os Peppini são realmente infelizes à sua própria maneira, seja em conflitos internos, movidos pela ambição ou até mesmo pela mútua antipatia como, por exemplo, entre sogras e noras, eles buscam encontrar o seu lugar no mundo, sempre perseguidos por ilusões ou desilusões.

O romance é um bom símbolo da nossa capacidade de miscigenação, prática genuinamente brasileira, que originou tantas famílias como esta, decorrente do improvável encontro de Giovanni Peppini, imigrante italiano de Nápoles, com Anna Schneider, filha de alemães. Os dois filhos já integralmente brasileiros, mas bem diferentes entre si, Cláudio e Pancrácio, desenvolvem suas próprias famílias. Difícil dizer o quanto de autobiográfico tem o livro já que o autor, Flavio Quintale, ele próprio um descendente italiano, nascido em 1976 em São Paulo é também um exemplo de adaptação, exercendo atualmente a função de professor de literatura na Universidade de Aaachen na Alemanha, onde reside com a mulher e os filhos.

Quintale demonstra habilidade em manter o interesse do leitor com um tema de formação pouco abordado na literatura contemporânea (Bildungsroman), mas com base em personagens convincentes e desenvolvido em uma narrativa ágil que prende sempre o interesse do leitor ao longo das reviravoltas da trama.

Segunda-feira, Janeiro 16, 2012

Haruki Murakami - Minha Querida Sputnik

Haruki Murakami - Minha Querida Sputnik - 232 páginas - Editora Objetiva, Selo Alfaguara - Tradução da versão em inglês de Ana Luiza Dantas Borges - Lançamento no Brasil 2008 (lançamento original no Japão em 1999, tradução para o inglês em 2001).

Haruki Murakami é um dos escritores contemporâneos japoneses mais populares no ocidente, tendo se tornado uma espécie de autor "cult" e até mesmo cogitado para o Nobel de Literatura nos últimos anos. O seu estilo difere da maioria dos autores japoneses tradicionais, tanto em relação aos temas quanto à técnica narrativa. Encontramos algum paralelo apenas em Junichiro Tanizaki (1886 - 1965), talvez ainda o mais moderno dos autores japoneses, no verdadeiro sentido da palavra. Esta é a história de Sumire uma jovem de 22 anos que sonha em ser escritora de romances. Ela está totalmente concentrada nesta meta, em uma fase "Jack Kerouac", e chega a abandonar a faculdade para se dedicar integralmente aos seus textos quando, repentinamente, a vida se transforma ao encontrar a sofisticada e rica Miu, mais velha e casada, por quem Sumire se apaixona perdidamente.

Sumire que costumava se vestir de maneira desleixada com roupas masculinas e meias trocadas, muda radicalmente o seu estilo ao ser contratada por Miu como uma espécie de secretária particular. O último vértice do estranho triângulo amoroso é também o narrador do romance, K. (já notaram a quantidade de personagens batizados como K. na literatura, desde o original criado por Kafka em "O Processo"?), um jovem professor primário apenas dois anos mais velho do que Sumire e que tem por ela uma paixão não correspondida. K. é uma espécie de confidente de Sumire e ambos são amigos e leitores vorazes que não conseguem confiar e se relacionar com outras pessoas com facilidade.

Na segunda parte do livro, Sumire parte em viagem de férias com Miu para uma paradisíaca ilha grega, onde desaparece misteriosamente e K. é chamado com urgência por Miu para ajudar a encontrá-la. Mistérios à parte, o tema principal de "Minha Querida Sputnik" é mesmo a solidão das grandes cidades e Murakami encontrou uma criativa e bela imagem figurada para os desencontros das pessoas através da órbita dos satélites artificais, como no seguinte trecho:
"Virei-me de costas na laje, contemplei o céu e pensei em todos os satélites feitos pelo homem girando ao redor da Terra. O horizonte continuava delineado com um brilho tênue, e as estrelas começavam a cintilar no céu profundo, cor de vinho. Busquei entre elas a luz de um satélite, mas ainda estava muito claro para localizar um a olho nu. As poucas estrelas pareciam fixas no lugar, imóveis. Fechei os olhos e prestei atenção aos descendentes do Sputnik, mesmo agora circulando ao redor da Terra, a gravidade seu único elo com o planeta. Almas solitárias de metal, na escuridão desobstruída do espaço, encontravam-se, passavam umas pelas outras e se separavam, nunca mais se encontrando. Nenhuma palavra entre elas. Nenhuma promessa a cumprir". 
O livro é de leitura rápida e agradável, mas a expectativa gerada pela mídia em relação ao trabalho de Haruki Murakami é o que podemos chamar de uma faca de dois gumes porque se por um lado ajuda a divulgar os llivros do autor e multiplicar as traduções em todo o mundo (mesmo que indiretas do inglês), por outro cria uma ansiedade no leitor que fica aguardando em cada parágrafo uma nova obra-prima da literatura. Achei este romance um pouco irregular e precisarei de mais uma leitura de Murakami para uma análise imparcial e justa do seu trabalho, talvez "Kafka à beira-mar" ou "Norwegian Wood".

Sábado, Janeiro 14, 2012

Rob Hefferan


Poderia dizer que o inglês Rob Hefferan tem uma saudável obsessão pelo corpo feminino que ele representa com riqueza de detalhes em um estilo fotográfico e hiper-realista mas, ao mesmo tempo, sem deixar de lado uma certa atmosfera romântica (os exemplos desta postagem bem poderiam ilustrar um romance de Jane Austen, apesar de um pouco arrojados para a era pré-vitoriana). Seja em desenhos à grafite ou pinturas à óleo e acrílico Rob Hefferan sempre surpreende pela beleza das suas imagens. Vejam aqui dois vídeos demonstrando a técnica de Rob Hefferan em ação, exemplos de criações como ilustrador comercial no seu site e sua página no facebook com uma seleção de tirar o fôlego.

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